Dias 648, 649 e 650 | “Ô malandro, vai plantar arroz, vai plantar feijão” | 10, 11 e 12/10/20

Podcast tá de volta amanhã, os episódios você ouve lá na Central3.

Ah, e agora o Medo e Delírio em Brasília tem um esquema de asinaturas mensal, mas tenha sua calma. O Medo e Delírio continuará gratuito, se não quiser ou puder pagar tá de boa, você continuará ouvindo o podcast e lendo o blog como você sempre fez.

Agora, se você gosta da gente e quer botar o dinheiro pra voar é nóis : ) Tem planos de 5, 10, 20, 50 reais e 100, esse último aí caso você seja o Bill Gates. Taí o link com o QR Code: [PicPay] E também criamos um Apoia-se, rola de pagar até com boleto, ATENÇÃO, PAULO GUEDES! [Apoia-se]

E com assinatura ou não eu e o Cristiano queremos agradecer imensamente a todos os ouvintes, que são muito mais do que poderíamos imaginar. Cês são fodas : )

__/\/\/\/\/\/\__

1. “Um homem de honra

Vamos á repercussão do vice louvando o “homem de honra que respietava os direitos humanos de seus subordinado“. Deu na Folha que “Elogio de Mourão a Ustra desonra as Forças Armadas. diz Comissão Arns“.

Nope Danny De Vito GIF - Nope DannyDeVito No GIFs

Um beijo para a Comissão Arns, que faz um baita trabalho, mas desonra há de precedida por alguma honra, e essa condição não é dada pelas Forças Armadas há um punhado de decádas.

“A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns publicou uma carta de repúdio à fala do vice-presidente Hamilton Mourão em que defendeu o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. A declaração veio a público na quinta (8), durante entrevista de Mourão ao programa de TV Conflict Zone, da rede alemã Deutsche Welle. Quando questionado sobre a idolatria do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por um dos mais conhecidos torturadores do período ditatorial, Mourão afirmou que Brilhante Ustra “era um homem de honra e um homem que respeitava os direitos humanos de seus subordinados”. De acordo com a Comissão Arns, as palavras do vice-presidente desonram as Forças Armadas e agridem a dignidade dos que foram vítimas de Ustra, condenado pela Justiça por seus atos. “Ao insistir em reverenciar o carrasco, [Mourão] fere mais uma vez o decoro do cargo em que foi investido sob juramento de respeitar a Constituição. É ela que nos ensina: ‘Tortura é crime inafiançável, insuscetível de graça ou anistia'”, diz a carta.” [Folha]

Desde quando esses generais formados na década de 70 na Escola Militar das Agulhas Negras têm alguma honra?! Esse pessoal aí recebe Curió no Palácio e sai por aí dizendo se tratar de um “herói nacional”, tal qual Ustra. Desde quando Villas-Bôas, o tuíteiro de ameaça de golpe ao STF enquanto comandante do Exército, tem honra?!

Passo ao excelente Marcelo Godoy, das melhores penas para se entender os militares brasileiros:

“Em muitos relatos de militares envolvidos em guerras surgem passagens em que se põem diante de um falso dilema: lutar bem ou vencer. Essa ideia está ligada à crença de que sem derramamento de sangue não se vence um conflito ou que a comiseração diante do inimigo equivale a um tiro no próprio pé, uma fraqueza que não aconteceria se a força e a decisão fossem usadas para neutralizar rapidamente o oponente. Muitos militares lembraram do dilema quando confrontados com a declaração do vice-presidente. Mourão, portanto, atestaria a honra de seu antigo chefe sem ter trabalhado com o coronel no quartel do DOI. Há militares que defendem a tortura – Mourão diz não ser seu caso –, mas poucos são os que defendem as execuções de prisioneiros. Há os que procuram desacreditar as vítimas, que relatariam sevícias só para comprometer a imagem do Exército. É preciso, pois, relembrar o que Ustra dizia: “Não é possível aplicar a Convenção de Genebra na guerra contra o terrorismo. Em nenhum país assolado pela guerra suja do terrorismo a convenção foi aplicada. Eles não usam uniformes, praticam atos de terrorismo contra inocentes e não respeitam as leis da guerra.” Ustra não usava a palavra tortura. Mas ela se insinuava em seu pensamento. Questionado sobre o que fazia diante de um preso que não queria falar, o coronel afirmou: “Tínhamos de ser rápidos e, às vezes, precisávamos ser um pouco mais duros. Não se trata terrorismo com flores.” Ustra só pôde dizer essas coisas porque recebia apoio de colegas. E o apoio vinha de oficiais como Mourão. Faltava a Ustra, porém, a coragem de assumir o que fez. E se ela faltava é porque o coronel precisava sufocar sua verdade. Respeitar os subordinados nunca foi um problema para Ustra. Seu problema era com os prisioneiros, como o vereador Gilberto Natalini (sem partido). Então um estudante de medicina, seu erro foi ler jornais de organizações clandestinas nos anos 1970. Acabou preso e levado ao inferno da Rua Tutóia, onde conheceu Ustra. “Ele me torturou pessoalmente. É um militar indigno do oficialato.” Mourão e seus colegas podem não acreditar no que Natalini disse à coluna. Vale então ouvir e ler o que antigos subordinados e colegas do coronel disseram, confirmando seu papel como comandante de um centro de tortura e morte.

“Ele dava gritos. O Ustra gritava pra car…”, contou o capitão de mar e guerra conhecido pelo colegas como Doutor Pimenta, oficial do Centro de Informações da Marinha. Elogiada por Ustra em seu livro Rompendo o Siléncio, a agente Neuza contou o que acontecia com os presos que se recusavam a virar informantes. E citou o dirigente comunista Hiram de Lima Pereira, cujo partido – o PCB – era contrário à luta armada. “Esse que você disse acabou morrendo. Não quis participar. Não queria participar, viajava.” Viajar era como os agentes se referiam ao assassinato de presos. Os corpos eram levados a uma represa na região de Avaré, daí a expressão “viajar”. Neusa era a tenente da PM paulista Beatriz Martins. Esteve no DOI/II de 1970 a 1975. Sobre a tortura, ela disse: “Eu fui lá fazer um serviço (na sala de interrogatório), alguma coisa, e eu entrei rápido e saí quase correndo. Eu falei: ‘Isso aí eu não faço. Eu não faço’. Uma das minhas fraquezas é que interrogatório eu não faço.” Neuza ganhou a medalha do pacificador por se envolver em tiroteios que terminaram na morte de cinco guerrilheiros da ALN. Outro subordinado de Ustra, o tenente Chico disse: “A ordem era matar. Foi preso, fez curso em Cuba ou na China ou na Argélia… um abraço”. Ele contou como foi a última noite de vida do guerrilheiro Antonio Benetazzo, que fez curso em Cuba. “A gente sabia que ele ia ser levado para ‘viajar’. Aí tocou para mim ficar tomando conta dele, olhando pra cara dele. E aí rapaz eu percebi que eu estava passando a noite com um condenado à morte.” Benetazzo foi executado no dia seguinte por quatro agentes do DOI/II. Mataram-no a pedradas, pois queriam simular um atropelamento. Chico trabalhou bem próximo do Interrogatório. “Você já ouviu falar do inferno? O diabo não passa por perto do pau-de-arara. Com certeza ele respeita e tem medo. Naquela época, tinha um livro muito falado do Solejnitsin, O Arquipélago Gulag. Arrumei o livro emprestado e fui lá no capítulo das torturas. Fui lá e vi que não era nada, que aquilo era um paraíso comparado com aqui.” Esses são relatos de subordinado de Ustra, aqueles a quem o honrado coronel tratava com urbanidade.

Para além da tentativa de se negar a existência de uma ditadura no País e do uso da tortura no combate à guerra revolucionária, o que espanta na entrevista de Mourão é a incompreensão sobre a guerra. Se a guerra é uma forma de se obter uma paz melhor, que tipo de paz Ustra esperava com seus métodos? Esqueceu que o objetivo militar é apenas um meio de se atingir um fim político? Ou seja desconhecia a diferença entre os objetivos na guerra e os objetivos da guerra? Ustra escolheu vencer “sua guerra”. Mas sua vitória – com sequestros, torturas e mortes – ajudou a derrotar politicamente o regime militar. Eis uma derrota vergonhosa. Diante da desenvoltura com que seus colegas se empanhavam em um trabalho de tiras, o marechal Cordeiro de Farias se disse espantado com a degradação da instituição militar. Há ainda militares contrários à tortura e ao papel desempenhado por Ustra. Lembram dos exemplos do general Osório, no Paraguai, e da Itália. Esta viveu a chaga do terrorismo nos anos 1970 e 1980 – um fenômeno de massa, com as Brigate Rose e Prima Linea – sem que o Estado se tornasse uma ditadura. E como não se produziu desaparecidos ou os abusos não eram regra, nenhuma anistia precisou ser construída. A resposta lá foi judicial. Mas mesmo ali, quando a inteligência militar italiana entrou na história, também se pôs os pés pelas mãos, como no caso do general Gianadelio Maletti, que protegeu terroristas da extrema-direita nas investigações sobre o atentado em Piazza Fontana, em Milão. O caso italiano devia ser estudado no Brasil. Se Mourão precisava de um exemplo para elogiar, podia usar o do general dos carabineiros Carlos Alberto Dalla Chiesa, que destruiu as Brigadas Vermelhas sem desaparecer com nenhum preso. Usou, para tanto, a lei – ele acabaria morto pela Máfia quando foi combatê-la. Mas isso seria esperar demais do vice-presidente. É que o tipo de resposta dada pela ditadura às ações da esquerda armada condiciona até hoje Mourão. Assim como a realidade deste País.” [Estadão]

E se Biden ganhar (e Trump aceitar a derrota, claro) será lindo demais, Bolsonaro há de ficar completamente atordoado:

“À medida que fica cada vez mais claro que Joe Biden provavelmente será eleito o próximo presidente dos Estados Unidos, mais problemática fica a prospecção do relacionamento com o Brasil. No momento, a questão ambiental é o principal obstáculo a uma relação equilibrada com os americanos, e o comentário de Biden sobre as queimadas da Amazônia é exemplar dessa dificuldade. Mas outro ponto de divergência pode ser a questão das torturas durante a ditadura militar no Brasil. Ontem, o vice-presidente Hamilton Mourão insistiu em elogiar o Coronel Brilhante Ustra, único militar condenado por tortura. Biden, quando era vice-presidente de Obama, revelou a BBC News, esteve no Brasil para entregar pessoalmente à presidente Dilma documentos sobre torturas e ilegalidades cometidas durante a ditadura militar no Brasil, entre os quais alguns que identificam Ustra como torturador contumaz. Segundo a reportagem da BBC News Brasil, um HD com 43 documentos produzidos por autoridades americanas entre os anos de 1967 e 1977, a partir de informações passadas não só por vítimas, mas por informantes dentro das Forças Armadas e dos serviços de repressão. Para Bolsonaro, no entanto, Ustra é “um herói brasileiro” e para Mourão “um homem de honra”.” [O Globo]

Chupem que é de uva, generais!

“Os documentos entregues por Biden foram utilizados na Comissão da Verdade: “Espero que olhando documentos do nosso passado possamos focar na imensa promessa do futuro”, disse o então vice-presidente dos Estados Unidos. A Comissão da Verdade é outro ponto de irritação por parte de Bolsonaro, que nega a validade de suas revelações. “Esse é um dos relatórios mais detalhados sobre técnicas de tortura já desclassificados pelo governo dos Estados Unidos”, afirmou à BBC News Brasil Peter Kornbluh, diretor do Projeto de Documentação Brasileiro do Arquivo de Segurança Nacional Americano, em Washington D.C. Ainda de acordo com Kornbluh, “os documentos americanos ajudam a lançar luz sobre várias atrocidades e técnicas (de tortura do regime). Eles são evidências contemporâneas dos abusos dos direitos humanos cometidos pelos militares brasileiros”. A insistência com que o vice-presidente Mourão e o presidente Bolsonaro elogiam o coronel Brilhante Ustra pode provocar uma crise diplomática semelhante à ocorrida no governo Geisel, quando o democrata Jimmy Carter deu uma guinada na política de Direitos Humanos nos Estados Unidos.”

__/\/\/\/\/\/\__

2. “UmA eScOlHa MuItO dIfÍcIl

Do Haddad, esse radical perigosíssimo que fez de 2018 “UmA eScOlHa MuItO dIfÍcIl

“A corrupção pode ter salvado momentaneamente a democracia. Refiro-me aos filhos de Bolsonaro.” [Folha]

flavio

E o momentaneamente é importantíssimo, pois se há algo que não está a salvo é a nossa frágil democracia.

“Bolsonaro, a princípio, tentou falar grosso. Entretanto, o “acabou, porra!” terminou em abraço, e o que de fato acabou foi a Lava Jato. A operação para blindar os meninos segue o seu curso. Enquanto isso, a sensação é a de que vivemos em “plena” democracia ao tempo em que a República é corroída miseravelmente, em clima de harmonia entre os Poderes. Moro, cansado da política, estuda mudar-se para a metrópole. E aqui a carne continua cara por culpa dos filhos do Lula, donos da Friboi.”

O desespero paterno é tamanho que…

“Na estreia do programa eleitoral gratuito, alguns poucos candidatos puderam divulgar videos de apoio gravados nas últimas semanas pelo presidente Jair Bolsonaro. As eleições deste ano serão o primeiro teste da popularidade de Bolsonaro nas urnas, desde 2018. Em terceiro lugar nas pesquisas sobre a disputa pela prefeitura de Belo Horizonte (MG), com 3% dos votos, o candidato Bruno Engler (PRTB), de 23 anos, divulgou vídeo com o presidente dizendo que se fosse mineiro, votaria nele nas eleições. “Com toda certeza, uma linha direta com a Presidência da República”, diz Bolsonaro, mencionando conhecer o candidato “há muitos anos”. O presidente também emprestou sua imagem a um candidato à prefeitura em Manaus (AM). “Minhas amigas e meus amigos, sou o coronel Menezes, escolhido e apoiado pelo presidente Bolsonaro, por ter competência e coragem para acabar com toda essa mamata”, diz o candidato do Patriota logo na abertura de seu programa eleitoral. Em Santos (SP), o candidato Ivan Sartori (PSD) reproduziu trecho de live de Bolsonaro em que ele diz apoiar um candidato na cidade, mas sem citar o seu nome. “Você sabe quem é o candidato do presidente Bolsonaro em Santos?”, diz a mensagem inicial do programa de TV. Entre os candidatos a vereador, apenas uma teve um vídeo exclusivo do presidente. É sua ex-funcionária Walderice Santos da Conceição, a Wal do Açaí, candidata a vereadora de Angra dos Reis (RJ). “Orientei a Wal a vir candidata a vereadora aí por Angra dos Reis e você, na medida do possível, eu peço a você que vote na Wal. Ela está botando até o nome Wal Bolsonaro. Tá autorizado”, diz o presidente. Na eleição suplementar ao Senado, em Mato Grosso, Bolsonaro foi citado nas propagandas de três candidatos, mas só a Coronel Fernanda (Patriota) pôde usar uma declaração em apoio a sua candidatura.” [O Globo]

Bolsonaro gravar vídeo pra Val do Açaí e continaur por aí falando em acabar com a mamama é a maior ironia dessa bad trip escrota em que a gente se meteu.

E como diria Caetano, o que vai abaixo é “por demais forte simbolicamente para eu nao me abalar“:

“Os movimentos recentes de Jair Bolsonaro renderam uma nova tese entre seus auxiliares e integrantes do centrão. Eles avaliam que o presidente largou o campo da direita radical e ocupou o espaço que diversos políticos vinham tentando preencher desde o início de 2018, do centro. Se assim ele permanecer nos próximos meses, ainda de acordo com essas pessoas, João Doria (PSDB-SP), Luciano Huck e Sergio Moro teriam muita dificuldade para chegar com força em 2022. [Folha]

Boulos GIF

Mas sobre esse papo de Centro, fico com essa tirinha do Dahmer:

Não sei se o mais absurdo é Bolsonaro migrando para o Centro ou Doria, Huck e Moro serem classificados como Centro. Sabe quem é Centro? O Lula! Me diga uma medida de esquerda do PT em 13 anos de poder. Não se mexeu uma linha no que diz respeito ao aborto, à política de drogas (que ceifa 60 mil vidas por ano), casamento gay (o primeiro governo a reconhecer direitos trans de seus funcionários, por exemplo, foi Alckmin, em SP), reforma tributária e por aí vai.

“Com esse pensamento, aliados já começam a falar em Bolsonaro em 2023 com naturalidade. A tese tem sido bastante discutida no Palácio do Planalto com o objetivo de continuar incentivando os movimentos do presidente.”

Plena pandemia, choque global, economia espirando por aparelhos e o Palácio só pensa em 2022.

E se prepare que lá vem absurdo:

Sim, Bolsonaro tá mandando um singelo “vai plantar arroz” pra quem reclama da alta dos alimentos. Isso aí é pra ser usado em looping contra Bolsonaro!

E tudo indica que o nome do Kassio, mentiroso e plagiador, escolhido a dedo por um presidente que coopta instituições e não tem a menor discrição para tal, será aprovado com tranquilidade.

sarcastic state of the union GIF

__/\/\/\/\/\/\__

3. Malditos Milicos

O presidente é panaróico e os generais não ficam atrás:

“O governo Jair Bolsonaro enviou agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) à Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-25), realizada em dezembro do ano passado, em Madri, na Espanha. Durante a reunião, segundo apurou o Estadão, eles monitoraram organizações não governamentais (ONGs), integrantes da comitiva brasileira e representantes de delegações estrangeiras. A presença da Abin no principal evento sobre mudanças climáticas do mundo é incomum. O Estadão consultou as listas oficiais das delegações nas edições da COP de 2013 a 2018, em posse das Nações Unidas. Em nenhuma delas aparece o nome de representantes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) ou da Abin. Fontes acostumadas a participar do evento disseram ser a primeira vez.” [Estadão]

Naked Gun Panic GIF

O famoso estado policialesco. Imagine, os caras já haviam espionado peirgsíssimos bispos católicos e agora ONGs – não que eles não estivessem espionando antes, ma em pleno evento da ONU é uma proeza digna de nota.

“O envio dos agentes secretos à conferência é mais uma evidência da postura conflituosa do governo Bolsonaro com organismos internacionais, ONGs e setores da administração federal ligados ao meio ambiente. Lideranças sociais e funcionários públicos com atuação em fóruns internacionais são mantidos sob vigilância. No ano passado, o Estadão já havia revelado que o Planalto monitorou os preparativos do Sínodo da Amazônia, organizado pela Igreja Católica. O governo vê orquestração de opositores nas críticas internacionais à sua atuação na área ambiental, com o objetivo de miná-lo, além de uma tentativa de invasão à soberania nacional, de olho nas riquezas naturais da Amazônia. O Brasil deveria ter sido o organizador da COP-25, mas, logo após sua eleição, Bolsonaro abriu mão da prerrogativa. Ele alegou dificuldades financeiras e divergências da agenda, para surpresa da Organização das Nações Unidas (ONU), que acabou transferindo o evento para a Espanha. De última hora, porém, o governo Bolsonaro incluiu uma equipe com nomes experientes em inteligência na delegação brasileira despachada para Madri.

A reportagem identificou quatro deles na lista oficial de participantes. Elaborado pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, o documento foi obtido por meio da Lei de Acesso à Informação. Os nomes foram fornecidos à COP pelo Itamaraty. Todos eles foram credenciados como parte da equipe do GSI da Presidência da República, cujo ministro-chefe é o general da reserva do Exército Augusto Heleno, sem que o vínculo com a Abin fosse informado à ONU. No documento oficial do evento foram identificados como “analistas”. A equipe é composta por Bruno Batista Rodrigues Pereira, ex-superintendente regional da Abin no Pará; Marcelo Donnabella Bastos, ex-secretário adjunto de Infraestrutura e Meio ambiente do Estado de São Paulo; Lília de Souza Magalhães e Pedro Nascimento Silveira. Os três últimos ingressaram na Abin no concurso de 2018. O Estadão tentou desde quarta-feira ouvir a Abin e o GSI sobre o que motivou a presença de quatro agentes secretos no evento, quais as atividades que eles desenvolveram, os relatórios que produziram e qual o cargo deles no governo, mas não obteve resposta. A ONU também não se manifestou.

A comitiva do governo contou, ainda, com o adido civil na embaixada brasileira em Madri, José Carlos Martins da Cunha, que foi diretor da Abin, e o coronel Adriano de Souza Azevedo, assessor de Planejamento e Assuntos Estratégicos na Secretaria Executiva do GSI, entre outros. A reportagem ouviu um dos agentes da Abin. Sob condição de anonimato, ele disse que o trabalho na COP teve como objetivo captar as críticas ao governo Bolsonaro, sobretudo com relação à Amazônia, para “defender os interesses do País”. Esse servidor negou que ambientalistas tenham sido fichados, mas confirmou a presença da equipe de inteligência em atividades do pavilhão do Brasil e de países estrangeiros. Admitiu que campanhas promovidas por ONGs eram motivo de preocupação. Uma fonte da Abin relatou que esses agentes se dedicam à temática ambiental na agência e são considerados oficiais recém-chegados, ou seja, de concursos recentes. Eles não aparecem como servidores do governo em publicações no Diário Oficial da União, tampouco no Portal da Transparência. As despesas de viagem também não são vinculadas a seus nomes. Isso é praxe e está dentro das normas legais. Em razão da natureza sigilosa das atividades, os servidores da Abin têm a identidade preservada e são comumente registrados apenas por um número de matrícula nas publicações oficiais.

Credenciados como parte da delegação, os oficiais de inteligência tiveram amplo acesso na COP. Na Conferência do Clima, os crachás são diferenciados por cores, o que ajuda a separar integrantes de governos de jornalistas, observadores internacionais, representantes da sociedade civil e funcionários da ONU. Obtida por eles, a credencial com tarja rosa e a palavra Party (no sentido de parte) é a que abre mais portas e dá até mesmo acesso a reuniões de negociação fechadas aos demais. Nelas, negociadores diplomáticos dos governos discutem os termos dos textos sobre a implementação do Acordo de Paris. O Estadão apurou que os agentes da Abin acompanharam atentamente as atividades no estande organizado pelas ONGs dentro da COP 25. O pavilhão Brazil Climate Action Hub recebeu debates e palestras durante duas semanas de eventos. Quatro fontes diferentes confirmaram à reportagem que souberam, ainda em Madri, da presença dos agentes nos corredores da COP, o que causou apreensão e surpresa entre os brasileiros. Um integrante da comitiva relatou que os agentes da Abin não se apresentaram formalmente ao restante da delegação. Outros dois disseram que foram interpelados pelos “representantes do GSI” sobre atividades no pavilhão. Essas fontes suspeitam que os alvos, além das ONGs, eram pessoas da própria delegação oficial, formada majoritariamente por servidores de carreira ou comissionados enviados pelos ministérios e por governos.

Habitué de COPs, o pesquisador Carlos Rittl, ex-secretário executivo do Observatório do Clima, afirmou que não havia necessidade de monitorar as atividades das ONGs, pois os debates eram abertos e as manifestações críticas ao governo, conhecidas. Rittl contou ter ouvido o rumor da presença de agentes quando já estava em Madri e, imediatamente, fez um pente-fino. Buscava nomes desconhecidos, uma vez que o corpo técnico de servidores ligados ao tema costuma se repetir. “Filtrei alguns nomes, mas acabei não descobrindo. A agenda em Madri era muito intensa, por toda a atenção que a política antiambiental do governo brasileiro recebeu”, afirmou Rittl. “Talvez o papel deles fosse monitorar tanto a sociedade civil quanto a delegação brasileira. A sociedade civil não tem nada a esconder, embora, desde o início, o governo tente nos monitorar e controlar. Imagino que os servidores de carreira que se dedicam a processos internacionais tenham ficado desconfortáveis. Eles negociam soluções complexas que tratam de interesses estratégicos. O maior constrangimento é para essas pessoas que representam seu país sob ciência de vigilância. É um absurdo. Recebem mandato para negociar sob observação. Qual o propósito?””

E por falr em Heleno…

“Diversas organizações sociais do Haiti, reunidas na Plataforma Haitiana de Desenvolvimento Alternativo, divulgaram um documento nesta sexta-feira (9), pelo qual exigem que a ONU (Organização das Nações Unidas) se responsabilize pelos mais de 3 mil casos de estupros (cerca de 300 deles envolvendo crianças) registrados no país durante a presença da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti), entre os anos de 2004 e 2017. O documento também acusa as missões de paz da ONU de introduzir o surto de cólera no país, naquele mesmo período, através de soldados de países sul-americanos (incluindo o Brasil), que formaram parte daquelas missões. Se estima que mais de um milhão de pessoas sofreram com a doença durante o período, e mais de 10 mil delas morreram. As organizações pedem uma indenização da ONU às famílias afetadas, e um reconhecimento formal por parte da entidade de sua responsabilidade nos acontecimentos citados. Entre outubro de 2004 e setembro de 2005, a Missão da ONU no Haiti foi comandada pelo então general Augusto Heleno, hoje na reserva, e exercendo o cargo de ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo de Jair Bolsonaro. Entre as polêmicas envolvendo a passagem de Heleno pelo Haiti está a o fato de que liderou uma operação chamada “Punho de Ferro”, na qual soldados teriam entrado atirando indiscriminadamente no bairro de Cité Soleil, em Porto Príncipe, o que terminou com a morte de ao menos 70 pessoas, incluindo mulheres e crianças – embora o relatório oficial sobre a operação fale em apenas 6 falecidos, contrastando com uma investigação jornalística da agência de notícias Reuters, baseada em relatórios da ONU e cabos diplomáticos dos Estados Unidos revelados pelo WikiLeaks, que concordam com a cifra de vítimas acima de 70, e que consideraram o evento como um “massacre”. Na época, em audiência na Câmara dos Deputados, o general Heleno justificou a ação na favela haitiana dizendo que “não tenho dúvida que diante da atitude das gangues de utilizarem mulheres e crianças como escudos para se protegerem, podem ter acontecido efeitos colaterais (morte de civis). Mas se aconteceram, foram mínimos”.” [Fórum]

“E daí, lamento, não sou coveiro”, poderia ter dito o general.

E o Almirante que virou braço-direito do Bolsonaro ganha um belíssimo jeton:

“Amigo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e hoje secretário especial da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência, o almirante da Marinha Flávio Augusto Viana Rocha, 58, ​recebe R$ 20 mil a mais de remuneração mensal por ter sido indicado em julho para representar o governo em uma empresa ligada ao Banco do Brasil.” [Folha]

paid pay day GIF

Vintinho por mês para o cosplay do Heráclio Fortes fazer figuração em reunião, viado!

“O almirante foi indicado pelo Banco do Brasil para uma vaga de membro titular do Conselho de Administração da Brasilseg, empresa do ramo de seguros fruto de uma parceria entre a instituição brasileira e o grupo espanhol Mapfre. A nomeação de Rocha foi efetivada em 31 de julho, para três anos de mandato. Pela participação no colegiado, ele tem direito a uma remuneração mensal bruta de R$ 20 mil.”

730 mil reais em 3 anos, tá bom pra você? Estado mínimo no cu dos outros é refresco.

“De acordo com o Portal da Transparência, o salário bruto pago ao secretário especial em julho, no qual não incidiu o valor devido por sua participação como conselheiro da Brasilseg, foi de R$ 44 mil. Constou um desconto de R$ 1.446,47 a título de “abate-teto”. A informação sobre os salários pagos aos militares em agosto e setembro não havia sido disponibilizada pelo governo até a publicação deste texto, mas a verba paga a servidores públicos por participação em conselhos de empresas geralmente fica de fora do cálculo do teto salarial.”

Sim, o Exército há mais de ano desumpre decisão do TCU pela divulgação dos salários dos milicos, é um mais honrado que o outro.

Em resposta a perguntas enviadas pela Folha, o almirante afirmou, por meio de sua assessoria, que sua indicação “foi feita pelo Banco do Brasil que, como sócio da empresa, tem direito a indicar representantes ao referido conselho”. Ele frisou que os conselheiros opinam em processos de tomada de decisões e definição de estratégias, “contribuindo, dessa forma, para a boa governança da empresa”, e que tem a qualificação necessária para desempenhar a atividade. “O secretário Flávio Rocha possui comprovada experiência nas áreas de estratégia, gestão e administração, fruto de sua capacitação profissional e de sua trajetória ao longo de quase 40 anos de serviço público”, disse a nota da assessoria. “Os membros do Conselho de Administração atuam com autonomia e, como já mencionado, são responsáveis por contribuir para a boa governança da empresa.” Sobre a remuneração bruta de R$ 20 mil pela participação no colegiado, o almirante disse que todos os membros do órgão recebem valor mensal fixo definido e custeado pela própria Brasilseg. “O valor líquido da remuneração, após descontado o Imposto de Renda, é de R$ 14.987,08″, informou.”

Força, guerreiro!

__/\/\/\/\/\/\__

4. Atenção, Paulo Guedes!

Elegeram um sujeito que louva torturador e…

“Empresários e executivos no Brasil começam a se manifestar de forma mais enfática sobre a condução da agenda democrática no país sob o atual governo.” [Valor]

Nao Me Diga Lufe GIF - NaoMeDiga Lufe LufeEMesmo GIFs

E o problema em si não é nem a democracia, mas o custo economico da loucura presidencial:

“Embora haja opiniões diferentes sobre o grau de resiliência da democracia brasileira, há um entendimento comum de que as instituições estão sob ataque, assim como a política ambiental e as instâncias de representatividade. Esse quadro eleva as incertezas, prejudica o andamento de reformas estruturantes e erode a reputação internacional do país, causando impactos diretos nos próprios negócios. Segundo entrevistados ouvidos pelo Valor, o ambiente institucional para operar é instável e falta projeto de país.”

O presidente que queria explodir uma adutora está trazendo instabilidade?! Que coisa…

“Embora alguns vejam canais de interlocução com determinados ministérios, a agenda de desenvolvimento para os próximos anos não está clara, sem que haja esforço da Presidência da República para debatê-la com o setor privado de forma ampla. Além disso, alguns se preocupam com o flerte do governo com o populismo fiscal.”

Não houvesse “flerte com o populismo fiscal” muitos desses empresários estariam de boa, fechando os olhos para o mautoritarismo presidencial.

“As manifestações partem de diversos setores do empresariado. “No Brasil, há um empobrecimento das instituições por causa do [presidente Jair] Bolsonaro”, afirma Pedro Wongtschowski, presidente do Grupo Ultra. Paulo Hartung, presidente-executivo da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), que reúne empresas do setor de florestas plantadas, afirma que, assim como em outros lugares do mundo, a democracia representativa perdeu legitimidade na sociedade. “Em algum momento, o governo deu sinais de que operava contra as instituições democráticas. Tanto que me vi na obrigação cidadã de escrever um artigo em defesa da democracia”, diz Hartung, que foi governador do Espírito Santo. Já Horácio Lafer Piva, acionista da Klabin e ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), diz acreditar que o Brasil esteja agora em momento muito particular e delicado da sua trajetória democrática. Isso porque, em sua opinião, Brasília desconhece a gravidade das crises simultâneas que acometem o país, de ordem sanitária, ambiental, política, social e econômica – com alto endividamento sobre o PIB, salto do desemprego e da desigualdade -, coroadas por uma crise emocional, que será um dos efeitos colaterais da pandemia.

“Você tem o presidente, seus filhos e aquele núcleo duro vivendo em uma espécie de simbiose e sob um estado de negação das crises”, diz Piva. Ele vê no Brasil uma sociedade muito viva, mas dentro de uma democracia frágil, habitando uma nação que sairá mais empobrecida, dividida e confusa depois desse conjunto de dificuldades. Passos, da Natura, chega a traçar um paralelo com o livro “Como as Democracias Morrem” (Zahar), dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, da Universidade Harvard. “A obra mostra que as democracias hoje morrem mais pela erosão de suas instituições e menos por golpes e tanques na rua. Temos no Brasil um ambiente que, de certa forma, assemelha-se a essa descrição”, afirma. A seu ver, essa é uma condição ainda mais perigosa, pois é menos explícita e se vale da manipulação da opinião popular e de medidas populistas. Dizendo-se preocupado com a cultura democrática e os rumos da consciência política no país, o Grupo Votorantim liderou, entre o fim de setembro e o início de outubro, evento voltado a debater a cidadania e a democracia no Brasil e no mundo. Empresários e executivos relatam dificuldade de acesso ao governo para discutir soluções. Pedro Passos, da Natura, comenta que alguns grupos de empresários têm conversado bastante entre si e enviado propostas ao governo, mas sem eco. Em alguns ministérios, no entanto, existe interlocução. Oliveira, da Duratex, afirma que há diálogo com a Procuradoria Geral da República e com os Ministérios da Infraestrutura e da Economia. Wongtschowski, do Grupo Ultra, também cita uma maior abertura dessas duas pastas e acrescenta a de Agricultura e a de Ciência e Tecnologia. “Mas, em outras áreas, em que prevalece uma visão mais ideológica, os canais são mais difíceis, como Educação, Família, Relações Exteriores, Meio Ambiente e a própria Presidência da República”, diz. “

Sim, o gabinete presidencial é tão louco quanto o gabinete da Damares ou o gabinete do pastor do MEC.

“Já Piva, da Klabin, afirma que não adianta dialogar com os ministros porque eles não têm o poder que deveriam ter junto ao presidente e, no fim das contas, o empresário não será escutado. “Ali é uma conversa de Exército: manda quem pode e obedece quem tem juízo. Bolsonaro, inclusive, já deixou isso claro a muitos ministros. Há, talvez, meia dúzia de empresários que chegam perto dele para conversar, mas precisa haver uma certa similitude de ideias”, diz. Em sua opinião, é uma situação diferente da que havia em governos anteriores. “O FHC e o Lula botavam tudo ali dentro. ‘Tragam o contraditório, que eu lido com isso com facilidade’. Agora não existe mais essa possibilidade. Fica difícil levar para o presidente o grau de preocupação e o sentido de urgência desses assuntos”, afirma.”

O governo disse que só vai cuidar da reforma tributária após as eleições, mas como os empre´srios se preparam para o anoque vem?

“Nesse contexto de pouco diálogo e transparência, as incertezas atingem o curto prazo, especialmente diante do adiamento das reformas administrativa e tributária e a emperrada agenda das privatizações. “Por exemplo, qual é o imposto que vou pagar no ano vem?”, indaga Passos. “Garanto que tem gente com essa dúvida. Vamos pagar ICMS ou imposto sobre consumo? Qual é a regra do jogo? Há uma confusão generalizada e não existe comando, não há um rumo e muito menos uma visão de país. São decisões episódicas, improvisadas, sem negociação política, um ‘bate cabeças’ sem liderança, sem consistência de agenda. Eu vejo o setor privado muito atônito com o conjunto de notícias que sai a cada dia”, afirma o cofundador da Natura. Para Passos, o governo Temer havia dado uma correção de rumo no tocante à retomada das reformas e à disciplina fiscal, mas isso se perdeu e está em retrocesso, com um “bate cabeças” dentro do governo que vai além do problema do pandemia. “Infelizmente estamos implicados em um problema de ordem política, elevando o risco país.” Investidores, de fato, estão preocupados com um possível populismo fiscal e andam receosos de que o governo federal pode não ter capacidade de honrar suas dívidas no futuro. Oliveira, da Duratex, relata que os empresários têm vivido sustos quase diariamente. “Você começa a se perguntar qual será o problema do dia e como isso afetará o planejamento da sua empresa. É impossível traçar planos com segurança e qualidade sem um cenário político minimamente estável, sem uma agenda política.” Especialmente no setor de atuação da Duratex, que envolve florestas plantadas, as quais levam de sete a oito anos para se formarem e darem retorno. As incertezas, obviamente, não são uma prerrogativa deste governo. Mas, para Oliveira, nunca esteve tão atual a frase “No Brasil, até o passado é incerto”, que surgiu durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso e na época foi atribuída ao então ministro da Fazenda Pedro Malan. Os riscos se acentuaram diante da frustração de expectativas por parte do empresariado, que havia apostado no governo de Jair Bolsonaro para conduzir transformações no Estado, capazes de devolver ao país uma estabilidade econômica e política, após as crises vividas na gestão de Dilma Rousseff, que culminaram em seu impeachment. “Os empresários, de modo geral, estavam ansiosos por uma agenda de mais estabilidade, de reformas e de privatização. Eu, pessoalmente, confesso que me frustrei. Temos lá a equipe econômica lutando bravamente por essas reformas. Agora, se você me perguntar o que vai acontecer, digo que não sei”, diz o presidente da Duratex, sem deixar de atribuir riscos e incertezas também à excessiva judicialização sobre a atividade econômica que, a seu ver, é praticada no Brasil. Wongtschowski, do Grupo Ultra, avalia que o câmbio, hoje, tem um componente que não é macroeconômico: é político, ligado à insegurança. Pelo prisma dos fundamentos econômicos, o real não deveria estar tão desvalorizado. “Se você quiser fazer um grande investimento voltado à exportação, pensa três vezes. Quanto estará o dólar daqui a dois anos? A R$ 7, a R$ 5 ou a R$ 3? Não tenho nem ideia. Um governo que não produz crescimento econômico, previsibilidade, estabilidade e rigidez fiscal é um governo que prejudica o crescimento do setor privado – e isso afeta a todos nós, igualmente”, afirma.

Há outros fatores relacionados à postura do governo que, em sua opinião, prejudicam o nível de investimento, o emprego, a saúde financeira do Brasil e a possibilidade de reformar o Estado. Entre eles estão a abordagem ambiental, a política de relações exteriores e o negacionismo científico, que potencializam a deterioração do ambiente institucional e isolam o país. “Cinco anos atrás o Brasil conseguia atrair muita gente séria, porque éramos vistos como nação em desenvolvimento, em crescimento, com grande biodiversidade, com startups. Hoje as pessoas não só hesitam em vir para cá como há um novo ciclo de evasão de cérebros”, diz o presidente do Grupo Ultra, para quem esse quadro atrasa a retomada do crescimento necessária para combater a pobreza e reduzir a desigualdade. Ele cita evidências do impacto na economia e nos negócios. “Os processos de privatização ou de concessões, por exemplo, têm atraído menos empresas do que se previa. Isso vai desde a venda de campos de petróleo da Petrobras até as concessões rodoviárias.” No saneamento, setor que despertou grande expectativa quanto à atração de grandes investidores estrangeiros, o empresário estima que o processo de desestatização será mais difícil do que o estimado, pois é um tipo de concessão que exige relação intensa com os governos federal, estadual e municipal – e o clima atual em nada ajuda. Em relação ao problema ambiental na Amazônia, Wongtschowski atribui o aumento de grilagem, garimpo, invasão de terras e desmatamento ilegal essencialmente a uma mudança de discurso deste governo que autoriza crimes, somada a um empobrecimento do órgãos de fiscalização do governo por causa do desmonte deliberado. “É uma perda na Amazônia terrível e talvez até definitiva”, diz. A devastação no bioma se aproxima dos 20%, nível a partir do qual, segundo cientistas, atingiria o ponto de não retorno, levando a floresta a entrar em processo irreversível de savanização, com impactos severos sobre o regime de chuvas na porção centro-sul do país. “A imagem horrível do Brasil no exterior que existe hoje é consequência das nossas ações. Não adianta culpar o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], que torna públicas notícias que são ruins. Não adianta matar o emissário.””

E isso aqui é um tiro no pé…

“A condução da política ambiental ainda cria argumentos para que se pratiquem barreiras não tarifárias contra o Brasil. Hartung conta que muitas vezes vê gente inteligente dizer que por trás de toda essa pressão estrangeira contra o desmatamento está um interesse comercial, porque o agronegócio brasileiro é competente. “Aí respondo assim: ‘Quando a gente não quer ter um problema, a gente não entrega bons argumentos para aqueles que querem criar o problema. Com o desmatamento ilegal, o que estamos fazendo é entregar boas ferramentas para quem deseja fazer protecionismo de mercado’”. Piva, da Klabin, faz críticas à parte da elite empresarial brasileira que se alinha aos governos quando interessa e se abstém quando é conveniente. Ele vê um dever cívico dos empresários de se manifestarem politicamente sobre temas de interesse nacional, a exemplo do que ocorre em outros países onde a discussão sobre democracia e os rumos do capitalismo está presente. “A gente precisa falar como cidadão. Cada vez que um empresário de uma grande companhia fala, ele contamina positivamente o seu entorno”, diz. “Não adianta o meu setor ir bem se o Brasil vai mal”, afirma Passos. “E estamos vendo o país com uma desigualdade social enorme, uma pobreza muito grande e um processo político de baixa representatividade, que atende mais a grupos de interesses específicos do que à sociedade de maneira ampla. O Estado acaba dominado por interesses menores. Essa é visão míope que já se mostrou furada no passado e não vai dar certo no futuro.” Embora o Brasil tenha muitas oportunidades, na avaliação de Piva, falta transformá-las em projeto sólido. “Isso demanda duas coisas: atitude e democracia. Atitude é: vamos fazer? Democracia é: vamos discutir? Vamos abrir, vamos ter uma agenda transparente, vamos pressionar, vamos aceitar críticas, vamos lidar com o contraditório?” Como cidadão, conta que tem sofrido com um pessimismo volátil. Mas que tenta viver o realismo esperançoso, tempos atrás evocado pelo escritor e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014).”

E adivinhe:

“O Palácio do Planalto respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que não se pronunciaria. O Ministério do Meio Ambiente não respondeu ao pedido de entrevista.”

El Chavo Del Ocho Ramon GIF - ElChavoDelOcho Ramon Silencio GIFs

__/\/\/\/\/\/\__

5. Mais Guedes

Guedes vs Marinho:

“Dez dias atrás, quando o caldo entre Paulo Guedes e entornou publicamente mais uma vez de forma robusta, pegou o telefone e ligou para o ministro do Desenvolvimento Regional. Tinha diante de si, em seu gabinete, José Múcio Monteiro, presidente do TCU. Bolsonaro disse a Marinho: “Sabe quando a pessoa está numa competição cabo de guerra? Sabe onde a corda arrebenta? No lado mais fraco. Fica atento”. Pouco antes, fora questionado por Múcio: “Presidente, quantos substitutos o senhor tem para o Paulo Guedes?”. Nenhum, foi a resposta. Múcio fez uma segunda pergunta: “E para o Rogério Marinho?”. “Uns vinte”, devolveu Bolsonaro.” [O Globo]

Guedes está prestigiado! Mas Bolsonaro é indeciso, sabe como é…

“Após o período eleitoral, que suspendeu debates sobre programas sociais e medidas para a retomada da atividade, o ministro Paulo Guedes (Economia) deve insistir em propostas estudadas pela pasta que já foram vetadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O pacote defendido por Guedes ainda inclui a redução de benefícios como o abono salarial —o que chegou a ser classificado pelo presidente como “tirar de pobres para dar a paupérrimos”— e a possibilidade de congelamento de benefícios, além da criação de um novo imposto nos moldes da CPMF. O ministro diz a auxiliares que existem soluções técnicas simples para abrir espaço no Orçamento e ampliar o Bolsa Família. ” [Folha]

I'm Currently In Deep Denial That That's Happening GIF - AmyPoehler LeslieKnope Deep GIFs

A essa altura do campeonato Guedes tá oferecendo soluções SIMPLES, viado! E ele fala isso sem nem corar…

Segundo ele, falta apenas uma decisão política para adotar as medidas, que já foram consideradas excessivamente amargas pela ala política do governo. Guedes afirmou a interlocutores que a base da ampliação do programa social deve ser formada pela consolidação de 27 benefícios já existentes e que deve ser feita dentro do teto de gastos. Sem isso, ele declara que o novo programa não será criado. A equipe econômica decidiu manter planos de mudar o abono —espécie de 14º salário pago a pessoas com renda de até dois salários mínimos. Em conversas recentes, o ministro disse que o benefício poderia ser incorporado ao novo programa, o que renderia até R$ 20 bilhões. Uma proposta alternativa limitaria o pagamento a quem recebe até 1,4 salário mínimo —com resultado de R$ 8 bilhões nas contas. Propostas de mudança no benefício, entretanto, já provocaram choques públicos entre o presidente e a equipe econômica. Para turbinar o programa, o ministro estuda outras medidas que ampliariam a arrecadação do governo. Uma das ideias é extinguir o desconto de 20% concedido a contribuintes que optam pela declaração simplificada do Imposto de Renda. Nesse caso, ainda seria necessário fazer cortes em outras áreas para abrir espaço no teto de gastos —regra que limita o crescimento das despesas públicas à variação da inflação. Para conseguir essa folga, Guedes pretende manter a posição de aprovar a proposta de desvincular, desindexar e desobrigar o Orçamento —ideia que também recebeu um veto explícito de Bolsonaro. Essa mudança permitiria, na prática, que o salário mínimo não seja mais corrigido pela inflação e que benefícios previdenciários sejam congelados. Hoje, o reajuste desses valores é automático, determinado pela Constituição.”

Algo que Bolsonaro proibiu com veemência, ninguém respeita o presidente.

“Em estudo pela equipe econômica, essa possibilidade abriu uma crise entre o time de Guedes e Bolsonaro. Em setembro, o presidente barrou a proposta e chegou a proibir discussões sobre o Renda Brasil. “Por parte de governo, jamais vamos congelar salários de aposentados, bem como jamais vamos fazer com que os auxílios para idosos e para pobres com deficiência sejam reduzidos para qualquer coisa que seja”, disse. “Quem porventura vier propor a mim uma medida como essa, eu só posso dar um cartão vermelho para essa pessoa.” Em reuniões no Ministério da Economia, no entanto, Guedes tem afirmado que a tendência é que o Bolsa Família fique como está caso essa mudança no Orçamento não seja feita. Membros do governo, ainda assim, ponderam que não há briga entre Bolsonaro e Guedes. Um ministro com trânsito no Palácio do Planalto afirma que o presidente concorda com o chefe da Economia na avaliação de que qualquer nova medida do governo deve respeitar o teto de gastos. Segundo relatos, Bolsonaro está alinhado a Guedes e afirma que só haverá novo programa social dentro dos limites da regra fiscal. Na quarta-feira (7), o presidente disse que não haverá “jeitinho” na ampliação do Bolsa Família e ressaltou que a palavra final em decisões econômicas do governo é dele e do ministro da Economia. Contra opositores, Guedes tem argumentado que o sistema econômico exige a manutenção do rigor fiscal, independentemente das razões daqueles que pressionam por novos gastos. Por isso, ele avalia que uma ampliação de despesas para financiar programas sociais, mesmo que seja um motivo nobre, traria impactos nocivos para o país.”

Tá pouco de reforma idiota, vamos enfiar mais uma no cu dos trabalhadores, sem KY, com vidro e areia:

“A criação de um modelo de formalização de emprego mais flexível que o regime de CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) poderia compensar a desoneração das empresas e evitar a criação de um novo imposto para equilibrar a perda de arrecadação do governo. A avaliação é do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que participou, na noite desta sexta-feira (9), de uma transmissão do portal Antagonista, na primeira entrevista desde que se recuperou do novo coronavírus. Ao comentar a narrativa do governo de que seria necessário criar um imposto para compensar a perda de receita, o deputado, recém-reconciliado com Paulo Guedes, fez alusão a uma proposta do ministro da Economia de estabelecer uma carteira verde e amarela. Seria um modelo com regras trabalhistas menos flexíveis, a exemplo do que se tentou fazer com a medida provisória 905, aprovada na Câmara, mas barrada no Senado. “Tem uma outra alternativa, que o ministro Paulo Guedes falou outro dia, que seria a criação de um novo modelo, a carteira verde e amarela, como ele chama, que seria um modelo com regras diferentes e custos trabalhistas diferentes da CLT para as pessoas que estão fora do mercado de trabalho, e que isso poderia gerar também uma formalização de mão-de-obra, uma criação de empregos em outra regra”, afirmou. Maia admitiu que a medida atrai críticas de políticos que argumentam que tiraria direitos trabalhistas, mas afirmou que “talvez seja menos danoso que a criação de um imposto.” “O mais importante dessa narrativa é que ninguém quer pagar mais impostos”, disse Maia, que propôs que o governo explique como a criação de um imposto para desonerar as empresas teria saldo benéfico para a sociedade.” [Folha]

Ninguém, em especial os mais ricos, né?

““E a outra opção seria isso, a carteira verde e amarela, que talvez pudesse resolver também a questão do imposto, sem essa troca da criação do imposto e a desoneração da folha.” O presidente da Câmara também chamou de “besteira” e “briga menor, desnecessária, que não vai levar a lugar nenhum” a disputa pelo comando da CMO (Comissão Mista de Orçamento). Com o apoio do deputado Arthur Lira (PP-AL), que pretende suceder Maia no comando da Câmara, um grupo tenta emplacar o nome da deputada Flávia Arruda (PL-DF) como presidente do colegiado. No entanto, acordo anterior do antigo blocão, formado, na época, por DEM e MDB, previa que o posto seria ocupado pelo deputado Elmar Nascimento (DEM-BA). A disputa impede a instalação da CMO e atrasa a discussão do Orçamento de 2021. Maia criticou a demora de construção do texto e afirmou haver “um certo ambiente para se deixar isso para depois da eleição municipal”, o que ele considerou “muito ruim”. “Em vez de a gente ficar gastando as nossas energia com uma comissão que hoje é irrelevante, porque o orçamento público hoje não tem espaço para nada, o espaço é apenas para aprovar as despesas correntes e mais as discricionárias que estão relacionadas à manutenção da máquina, vamos primeiro unir esforços para organizar a PEC Emergencial”, defendeu, sobre a proposta que cria mecanismos para ajuste fiscal. “Aí, de repente, se a gente conseguir promulgar essa PEC, aprovar, aí nós vamos ter sobre o que brigar”, afirmou. Na conversa, Maia afirmou que pretende pautar a PEC da prisão após condenação em segunda instância até 17 de dezembro, quando acaba o ano legislativo. O deputado comentou ainda que, ao receber o diagnóstico de Covid-19, recebeu de Jair Bolsonaro uma foto em que o presidente segurava cloroquina. “Achei simpático”. A entrevista, que corria com clima descontraído, foi encerrada por Maia depois que o presidente da Câmara se irritou com um vídeo em que o procurador Hélio Télio fez uma pergunta sobre improbidade administrativa em tom crítico a Maia. O deputado contestou as afirmações, disse que o procurador estava sendo grosseiro e desligou a câmera.”

James Harden Interview GIF - JamesHarden Interview HeadTilt GIFs

Essa irritação reforça a minha impressão que Maia está sendo chantageado, só isso explica sua mudança de postura na última semana.

__/\/\/\/\/\/\__

6. STF

Começo com o Ascânio Seleme:

“Nada como um dia depois do outro. Até o final de setembro, as articulações dos novos aliados de Bolsonaro contra a Lava-Jato andavam de vento em popa. A indicação de Kassio Marques para a vaga de Celso de Mello era o ponto alto do entendimento entre o centrão, o Planalto e alguns ministros do Supremo Tribunal Federal. O presidente afastava, pelo menos provisoriamente, a ideia de nomear um nome terrivelmente evangélico ou um advogado despreparado para o posto, o tribunal seguia na sua solene altivez, e o centrão ganhava um ministro que ajudaria a torpedear a saga punitivista, engordando a ala garantista da Segunda Turma do STF. Aí chegou o Fux. O novo time de Bolsonaro havia esquecido que o Supremo tinha um novo presidente. Acostumado com a simpatia e a amizade de Dias Toffoli, batia bola como se nada houvera. Foi um erro. O mundo estava diferente. E esta é a beleza da rotatividade no comando do STF. Se Toffoli fosse presidente vitalício, como funciona na Suprema Corte dos Estados Unidos, Bolsonaro nadaria de braçada. Mas, não, por aqui o sabiá muda de cantiga a cada dois anos. E o canto da vez é o de Luiz Fux, que reagiu à manobra do capitão com outra manobra, e tirou poder da Segunda Turma sobre a Lava-Jato.

Sem entrar no mérito de quem tem razão, se os garantistas ou os punitivistas, é fato que se Bolsonaro e o centrão estão de um lado, tudo indica que o outro lado é melhor. Se o lado de Bolsonaro e do centrão também tiver a simpatia do PT de Lula, mais forte fica esta convicção. Foi o que se viu com a indicação de Kassio Marques. O festival de elogios ao magistrado não teve qualquer contenção partidária. O PT sentiu-se à vontade para falar bem alegando que o indicado já havia sido conduzido para o TRF pela ex-presidente Dilma. Mas é mais do que isto, além de tentar enterrar a Lava-Jato, Kassio provavelmente se somará aos que querem punir e desautorizar Sergio Moro, anulando a sentença de Lula no caso do tríplex do Guarujá. O ex-sumido senador Renan Calheiros também entrou no circuito ao lado de Bolsonaro, do centrão e do PT de Lula, reforçando a tese de que o outro lado é melhor. Há três semanas, Renan recebeu Lula num hospital de São Paulo, onde se convalescia de uma cirurgia. “Vou vingar o senhor, presidente”, disse Renan ao visitante.

Dias depois, saiu do hospital e voltou a operar com toda a desenvoltura que o distingue. Junto com seu ex-desafeto, o presidente do Senado Davi Alcolumbre, Renan organizou a paz entre Paulo Guedes e Rodrigo Maia; ajudou a consolidar a vida de Bolsonaro no STF; está azeitando o caminho de Kassio no Senado e incentivando a punição a Moro. Renan trabalha por Lula, com o seu aval, e por Bolsonaro, com o OK do presidente. Foi para atender ao capitão que ele acionou a senadora Kátia Abreu, a organizadora do jantar que reuniu Guedes e Rodrigo. E para contemplar também o petista, Renan se uniu a Alcolumbre em favor do rito rápido na aprovação do garantista Kassio e da votação para a suspeição de Moro. Se depender de Renan e dos novos aliados de Bolsonaro, a maquiagem do currículo do indicado não o impedirá de ser aprovado pelo Senado. Com isso, ganham centrão, Bolsonaro e Lula. E ganha o reinserido Renan. Não foram poucas, como se vê, as articulações que reuniram sob o mesmo guarda-chuva Bolsonaro, Lula, Renan, Gilmar, Toffoli, Alcolumbre e o centrão. Não importa a força e o poder que um grupo desse possa ter, o problema é que sempre há um outro lado. E de dois em dois anos a fila anda.” [O Globo]

E já que falamos do Kassio, algo óbvio asm que ainda assim vale ser matrelado:

“Quem conversou com Bolsonaro sobre o processo de escolha de Kassio Nunes Marques não tem dúvidas: o personagem decisivo do episódio foi mesmo o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente.” [Folha]

Warning Siren GIF - Warning Lights Cops GIFs

E essa do Ascânio pra cima do Toffoli é maravilhosa:

“Pode-se falar tudo de Dias Toffoli, menos que não seja transparente. Tem o currículo que tem e não se acanha. Não inventou mestrados, doutorados ou pós-docs. Sabe-se que lecionou numa universidade meia boca de Brasília e nunca escondeu que tentou ser juiz e foi reprovado em dois concursos. Ele é o que é. E ponto final.”

E Fuix chegou chegando na presidência do STF:

“O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luiz Fux, suspendeu uma decisão do ministro da Corte Marco Aurélio Mello e determinou o retorno imediato à prisão de André de Oliveira Macedo, conhecido como André do Rap, um importante chefe do PCC (Primeiro Comando da Capital). Macedo, 43, deixou a penitenciária de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, na manhã deste sábado (10) após decisão de Marco Aurélio, que havia considerado que ele estava preso desde o final de 2019 sem uma sentença condenatória definitiva, excedendo o limite de tempo previsto na legislação brasileira. A defesa de André do Rap afirmou que ele iria de Presidente Venceslau para Guarujá (SP), onde poderia ser encontrado. De acordo com o Jornal Nacional, da TV Globo, ele foi seguido por investigadores e, em vez de seguir para o litoral, foi para Maringá (PR), de onde autoridades acreditam que ele fugiu para o Paraguai. Ao suspender a determinação de seu colega no STF, Fux destacou que a soltura do chefe do PCC compromete a ordem pública e que se trata de uma pessoa “de comprovada altíssima periculosidade”. “Com efeito, compromete a ordem e a segurança públicas a soltura de paciente 1) de comprovada altíssima periculosidade, 2) com dupla condenação em segundo grau por tráfico transnacional de drogas, 3) investigado por participação de alto nível hierárquico em organização criminosa (Primeiro Comando da Capital – PCC), e 4) com histórico de foragido por mais de 5 anos”, escreveu Fux. “Consideradas essas premissas fáticas e jurídicas, os efeitos da decisão liminar proferida no HC 191.836, se mantida, tem o condão de violar gravemente a ordem pública, na medida em que o paciente é apontado líder de organização criminosa de tráfico transnacional de drogas”, concluiu.” [Folha]

Esse diálogo é maravilhoso:

E olha essa treta:

“Marco Aurélio e Fux protagonizaram nesta semana uma troca de farpas durante a despedida do ministro Celso de Mello da Corte, após Fux ter escolhido a ministra Cármen Lúcia para prestar homenagem, em nome do tribunal, ao ministro que está se aposentando. Marco Aurélio, que é vice-decano do STF, se irritou e se recusou a falar depois dos colegas. “Observo na vida acima de tudo a organicidade. Vossa Excelência anunciou que a ministra Cármen Lúcia atuaria como porta-voz, falou em nome do colegiado”, disse o ministro para Fux.”

Maíra Edu GIF - Maíra Edu Filhos GIFs

Essa fala do Celsão em sua despedida passou batida por mim:

“O ministro Celso de Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), afirmou nesta quarta-feira (7) que o país vive um “delicado momento” em que autoridades ignoram os limites do poder e tentam cooptar as instituições. Ao discursar por meio de videoconferência, o ministro disse que tem uma “inabalável fé na integridade e na independência do STF” por mais desafiadores, difíceis e nebulosos “que possam ser os tempos que virão”. “Os magistrados deste alto tribunal, com suas qualidades e atributos, sempre estarão, como sempre estiveram, à altura das melhores e mais dignas tradições históricas”, afirmou. De acordo o decano, essa tarefa se dá “especialmente em delicado momento de nossa vida institucional no qual se ignoram os ritos do poder e em que altas autoridades da República, por ignorarem que nenhum poder é ilimitado e absoluto, incidem em perigosos ensaios de cooptação de instituições republicanas”. Celso afirmou ainda que a atuação das instituições “só se pode ter por legítima quando preservado o grau de autonomia institucional que a Constituição lhes assegura”.” [Folha]

__/\/\/\/\/\/\__

7. LJ

“O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), retirou da Lava Jato do Rio de Janeiro a ação contra Alexandre Baldy, secretário licenciado dos Transportes Metropolitanos do governo João Doria (PSDB). O magistrado declarou a incompetência do juiz da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, Marcelo Bretas, para conduzir o caso e remeteu a investigação à Justiça Eleitoral de Goiás. Baldy foi preso por determinação de Bretas em 6 de agosto, por acusações ligadas a período anterior à entrada dele no Governo de São Paulo, mas Gilmar Mendes concedeu habeas corpus no dia seguinte e ele foi liberado. Duas semanas atrás, o ministro do STF havia suspendido a tramitação das investigações. O secretário licenciado de São Paulo foi acusado pelo Ministério Público Federal do Rio de Janeiro de receber ao menos R$ 2,6 milhões de propina de integrantes da organização social Pró-Saúde e da empresa Vermute. Os valores teriam sido repassados ao político entre 2014 e 2018, período em que foi secretário de Comércio de Goiás, deputado federal e ministro das Cidades no governo Michel Temer (MDB). Gilmar Mendes, porém, argumentou que trechos da manifestação do Ministério Público e dos depoimentos de delatores fazem referência a movimentações ilícitas para doações de campanha, o que justifica a remessa para a Justiça Eleitoral do estado em que ele se candidatou. O processo será distribuído para algum magistrado goiano, que poderá revisar os despachos de Bretas, como os mandados de busca e apreensão e determinação de bloqueio de bens. [Folha]

E olha a ironia:

“A PGR (Procuradoria-Geral da República), que tem tido embates com a Lava Jato, havia se manifestado em favor da operação neste caso e defendido a manutenção do processo com Bretas. A subprocuradora Lindôra Araújo, uma das pessoas mais próximas do procurador-geral, Augusto Aras, afirmou que o caso deveria continuar na Justiça fluminense por envolver de esquema organização social diretamente relacionada a desvios em contratos do RJ. Na operação no dia que foi preso, a polícia cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Baldy. Os agentes federais apreenderam R$ 90 mil guardados em dois cofres da casa dele em Brasília e mais R$ 110 mil na residência que ele mantém em Goiânia. Gilmar Mendes rejeitou a reclamação da defesa de Baldy por razão processual, mas concedeu de ofício, ou seja, sem provocação das partes do processo, a ordem de remessa do caso para Goiás. “No presente caso, vislumbro constrangimento ilegal manifesto, a justificar excepcional concessão da ordem”, escreveu Gilmar.”

__/\/\/\/\/\/\__

8. Salles

As instituições estão funcionando, ô se tão!

“O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes arquivou notícia-crime contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, por declaração proferida na reunião ministerial de 22 de abril sobre “passar a boiada”. Moraes acolheu parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR).” [Congresso Em Foco]

É claro que o Aras não viu nada demais, pra quê hatear o presidente que pode lhe indiar aoi STF?!

“Em parecer pelo arquivamento, o procurador-geral da República, Augusto Aras, argumentou que, na reunião, Sales se limitou a manifestar opinião sobre “temas relacionados às diretrizes que poderiam vir a ser, ou não, adotadas pelo Poder Executivo”. Ele considerou não haver nenhum indício real de ato praticado por Salles que justifique a instauração de inquérito ou de qualquer investigação.”

Imagine, Salles é só retórica, não faz nada de ofício.

E adivinhe, o governo chegou atrasado nas queimadas, afete surpresa daí que eu afeto daqui:

“No ano com maior registro de queimadas da última década da Amazônia e da História do Pantanal, os brigadistas do Ibama responsáveis por conter o fogo chegaram com quatro meses de atraso. O GLOBO teve acesso a uma série de relatórios internos do órgão do Ministério do Meio Ambiente (MMA), mostrando que mudanças na lei e uma série de registros burocráticos contribuíram para o atraso dos brigadistas. A demora para o envio dos servidores inviabilizou a proteção de territórios indígenas e também expôs localidades do Cerrado. A autorização para a viagem dos brigadistas recebeu o aval do Ministério da Economia (ME) apenas em junho, dois meses após o assunto chegar à pasta. Foi aprovado o envio de 1.481 profissionais para as áreas de queimadas. O Ibama permite, por lei, a contratação de 2.520.” [O Globo]

Ricardo Salles é CRIMINOSO. O ministro do Novo é CRIMINOSO. O ministro CRIMINOSO saiu do Novo mas o Novo não saiu e nunca sairá do ministro CRIMINOSO. E o problema é que não transformamos o Pantanal num grande pasto repleto de BOIS BOMBEIROS, a cloroquina ruminante desses imbecis.

“O órgão do MMA contava com o reaproveitamento dos brigadistas que combateram as queimadas na Amazônia em 2019, visto que os treinamentos previstos para a formação das novas equipes foram suspensos, devido à pandemia do coronavírus. No entanto, em fevereiro, o governo federal editou a medida provisória 922, que descreve as condições sobre o trabalho temporário no serviço público. O texto impede a recontratação de pessoas que prestaram serviços, a menos que seja precedida de “processo seletivo simplificado de provas ou de provas e títulos”. Após receber o aval do ME, o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais do Ibama (Prevfogo) ainda precisou esperar até 10 de agosto para a publicação de uma portaria que deu a autorização definitiva para a contratação dos brigadistas. Foi o capítulo final de um trâmite burocrático que, segundo especialistas, deveria ter se encerrado em abril. Não faltaram avisos, dentro dos órgãos ambientais do governo federal, de que as condições climáticas de 2020 seriam particularmente severas. O Prevfogo encaminhou o pedido para a contratação de brigadistas, o que seria feito sem gastos extras ao governo, ainda em janeiro. No dia 18 de março, o MMA publicou uma portaria estabelecendo período crítico de emergência em relação a incêndios florestais em 17 estados — entre eles, todos os localizados na área da Amazônia Legal e do Pantanal. Procurado pela reportagem, o ME informou que pediu mais esclarecimentos sobre a contratação dos brigadistas porque o MMA “não apresentou uma série de documentos obrigatórios, conforme determina o regulamento para solicitação de contratação temporária”.

Em abril, o Pantanal contava com 784 focos de fogo — 23 vezes mais do que o visto no mesmo mês no ano passado (33). Na Amazônia, a quantidade de incêndios entre maio e julho foi superior à vista no mesmo trimestre em 2019. Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, considera que a expansão das queimadas é reflexo da “falta de planejamento estratégico e de um plano de longo prazo para o combate ao fogo”. — Desde o ano passado, toda a reação restringiu-se a ações emergenciais, e assim não há como debelar as queimadas — avalia. — Os indígenas são as maiores vítimas, eles precisam de políticas preventivas porque grileiros e desmatadores usam o fogo para invadir suas terras. Carlos Minc, ex-ministro do Meio Ambiente, destaca que órgãos governamentais fizeram um “jogo de empurra” diante da crise ambiental, desqualificando as previsões feitas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais sobre a dimensão da seca. — Todos os governos sérios começam a se planejar no início do ano, conversando com secretarias estaduais de Meio Ambiente e Agricultura, até porque não é de um dia para o outro que os ministérios darão os programas carimbados — explica. — Obviamente a pandemia atrapalhou o combate às queimadas, e por isso os brigadistas do ano passado deveriam ser reaproveitados. A medida provisória foi errada.”

Passo ao Marcelo Leite:

“esta semana o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um aviso sinistro sobre a onda de calor que assola a região central do Brasil: temperaturas 5ºC acima da média por cinco dias seguidos aumentaram o risco de morte para o nível de “grande perigo”. O brasileiro já vinha assistindo, semanas e meses a fio, a imagens de incêndios florestais fora de controle em boa parte do Pantanal e áreas destacadas do cerrado. Na Califórnia também ardem as florestas, mas a repetição do desastre, a cada ano, não atrai mais tanta atenção. Se não é a Califórnia, é a Austrália. Se não é a Austrália, a Sibéria. Se não a Sibéria, Portugal. Ou Espanha. Grécia. Agora, o Pantanal. Donald Trump e Jair Bolsonaro, que chegaram aonde chegaram menosprezando a crise do clima e a preservação ambiental, gostam de atribuir queimadas a causas naturais. Estiagens prolongadas ressecam a vegetação, que pega fogo com qualquer raio. Não resta dúvida de que a mudança de condições atmosféricas favorece e realimenta o inferno de fogo. Na Califórnia, a temperatura média do ar já subiu 1,7ºC nas últimas décadas. A perda de chuvas e neve aumentou em 84 dias, desde 1970, a época anual propícia a incêndios. O Pantanal enfrenta em 2020 uma das piores secas da história. Negacionistas se apressarão a dizer que é da natureza do clima mudar e que não há por que excluir esse ponto fora da curva de sua margem natural de variabilidade. Fica mais e mais evidente que se trata de uma recusa a enxergar a realidade. A década de 2011 a 2020 é a mais quente registrada no planeta desde a Revolução Industrial, e este ano concorre para bater o recorde de… 2016. O gelo que cobre o oceano Ártico reduziu-se à segunda menor área no mês passado, perdendo só para 2012. Em maio, a Sibéria registrou temperaturas 10ºC acima do normal.

Não foi por falta de aviso da ciência que a política ignorou os sinais claros de uma transformação alarmante dos padrões climáticos da Terra. Eventos extremos cada vez mais frequentes —derretimento das calotas polares, elevação do nível do mar, furacões mais intensos, secas e ondas de calor mortíferas—foram previstos e estão sendo observados. Seis relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, na sigla em inglês) alertaram para a necessidade de diminuir a queima de combustíveis fósseis (carvão e petróleo, principalmente) e de conter o aquecimento global no máximo em 2ºC, de preferência 1,5ºC. Metade (1ºC) já foi. O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) projetou o que deve acontecer em cada bioma do país. No Pantanal, estima que até 2040 o calor aumentará em 1ºC e as chuvas se reduzirão entre 10% e 25%; em 50 anos, a temperatura pode subir de 2,5ºC a 3ºC. Na Amazônia, até 2070 a precipitação pode recuar 25% a 30%, e os termômetros subirem de 3ºC a 3,5ºC. Somando o impacto do aquecimento global com o desmatamento que voltou a crescer, a maior floresta tropical do mundo pode entrar em colapso, processo que especialistas chamam de “dieback”. O cenário é por vezes descrito como savanização, com a mata amazônica derivando para uma formação florestal mais aberta, arbustiva. Isso implicaria perda de muitas espécies, hoje adaptadas à floresta chuvosa, e um possível desligamento dos “rios voadores” que levam chuvas para o Sudeste e o Centro-Oeste (Pantanal incluído). Enquanto negacionistas negam, a ciência avança. Nesta segunda-feira (5), o periódico Nature Communications trouxe estudo de pesquisadores da Holanda, Suécia e Alemanha prevendo que 40% da Amazônia podem se tornar mais parecidas com uma savana até o final do século.

Políticos conservadores recusam precauções ambientais inspirados pela noção bíblica de que a natureza foi presenteada à humanidade para desfrutar e explorar. Ao mesmo tempo, negam que seres humanos tenham o poder de influenciar o destino físico do planeta, para destruí-lo ou salvá-lo, portento que só estaria ao alcance da divindade. Paranoia, fatalismo e inércia se amalgamam na convicção de que o alarme com as mudanças climáticas e com a devastação da Amazônia e do Pantanal —ou da mata atlântica, do cerrado, de Abrolhos…— tem origem ideológica ou conspiracional. Em poucas palavras, serviria ao propósito de impedir o desenvolvimento do país. Tal maneira de pensar perdeu apoio na sociedade e no cenário internacional, mas continua viva entre militares brasileiros. É o que inspira a guerra de difamação movida pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo vice Hamilton Mourão contra o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e as ONGs que confiam nos dados de queimadas e desmatamento. Os focos de fogo detectados por satélites no Pantanal em 2020, em pouco mais de nove meses, estão na casa de 20 mil (o triplo de 2019). No pior ano desde 1998, o Inpe registrou 11.644 focos (2005) —e isso num período de 12 meses. Nunca se viu tanto fogo por ali, e um quarto do bioma foi incinerado. Mesmo assim, o presidente vai à ONU mentir ao mundo que queimadas são um fenômeno cultural, prática comum entre indígenas e ribeirinhos. No primeiro ano de seu governo, o desmatamento na Amazônia progrediu 34% e ultrapassou 10 mil km2 (meio Sergipe). Neste ano, quando o dado anual do Inpe for publicado (sistema Prodes), dá-se como certo de que poderá ultrapassar 13 mil km2. Mourão prefere destacar que vêm caindo desde julho os alertas de desmatamento de outro sistema do Inpe (Deter). O vice omite, convenientemente, que esses três meses foram também vice-campeões em número de alertas, perdendo só para os mesmos três meses de 2019, o primeiro ano do capitão e do general no poder. Os desastres ambientais que assolam o Brasil são tanto resultado das mudanças climáticas (que favorecem queimadas e colapso da floresta) quanto fatores a agravá-las (o carbono emitido em sua destruição realimenta o aquecimento global). Por sua ação e omissão, os homens estão queimando o futuro do planeta. Mas é a irresponsabilidade dos homens no poder que dificulta apagar os incêndios.” [Folha]

Essa nateria d’o Globo vai na mesma linha:

“O calor derrete a balança comercial brasileira, afirma Eduardo Assad, da Embrapa, estudioso há três décadas do impacto das mudanças climáticas na agricultura. Ele diz que ondas de calor no ano passado (período de produção 2018/19) causaram perdas de R$ 15 bilhões ao Rio Grande do Sul e de R$ 10 bilhões ao Paraná. O prejuízo é decorrente da perda de produção que seca e calor impõem ao agronegócio. A onda de calor de outubro de 2020, que mal terminou, foi a maior da História do país e ainda não tem a conta feita, mas Assad estima que os prejuízos serão grandes. Eles variam em função do tamanho e do tipo de área de produção afetadas. No ano passado, plantações morreram por falta de água. Mas Assad ressalva que quem plantou com práticas corretas de manejo e conservação de solo e água perdeu pouco. Mas muitas áreas foram afetadas, reduzindo a produtividade e, consequentemente, a produção. Foi uma seca severa, no momento em que a soja e o milho mais precisavam de água. Nessa última década, isso se repetiu, no mínimo, três vezes, destaca Assad. — Vejo esse momento com tristeza. Não foi por falta de aviso. Há 20 anos alertamos que fenômenos extremos, como ondas de calor, se tornariam mais frequentes e intensos. Acertamos as previsões. É o que enfrentamos agora. É preciso mudar o modelo de produção agrícola. O atual não sobreviverá — destaca Assad, pioneiro no Brasil nos estudos sobre o aquecimento global e a agricultura e também professor do mestrado em agronegócio da Fundação Getúlio Vargas.” [O Globo]

Ótimo texto do Luiz Eduardo Assins, o primeiro parágrafo me deixou boquiaberto:

“Não se pode minimizar a importância histórica da agricultura nas grandes conquistas da civilização. Nathan Nunn e Nancy Qian publicaram em 2009 um saboroso texto (The Potato’s Contribution to Populatin Growth and Urbanization) em que demonstram por meio de modelos econométricos que nada menos que 22% do aumento da população mundial entre 1700 e 1900, quando passamos de 603 milhões para 1,6 bilhão de habitantes, se deveu à introdução do cultivo da batata na Europa. A melhoria na quantidade e na qualidade do consumo calórico foi fundamental para a maior expectativa de vida. Aqui, entre nós, há ainda quem pense, como os fisiocratas do século 18, que a agricultura é nosso passado e nosso futuro.” [Estadão]

Doideeeera Doidera GIF - Doideeeera Doidera Tvquase GIFs

“Agro é tech, agro é pop, agro é tudo, diz o slogan da campanha publicitária. Será, mesmo? Pelas estatísticas oficiais do IBGE, que seguem a convenção internacional, a participação do setor agropecuário no PIB brasileiro foi de 4,4% no ano passado. Já foi bem maior. Em 1960, por exemplo, era de 17,7%. Caiu porque os outros setores cresceram mais que a agropecuária. Este fenômeno é global. Estatísticas do Banco Mundial mostram que a contribuição deste segmento para o PIB do mundo recuou de 7,6%, em 1995, para 4%, em 2018. Os países ficam mais ricos, regra geral, desenvolvendo o setor industrial e o segmento de serviços sofisticados. Os cinco países com maior participação da agropecuária no PIB têm uma renda per capita média de US$ 1,6 mil, no conceito de paridade de poder de compra. Já os cinco com menor participação deste setor apresentam uma renda per capita de US$ 80.242. Há distorções nesta comparação por causa de pequenos países produtores de petróleo, mas o fato é que a agropecuária é tanto mais importante quanto mais pobre for o país. Isso se explica pelo impacto relativamente menor do crescimento desta atividade sobre os demais segmentos que compõem o PIB. Os efeitos de encadeamento sobre a tessitura da atividade econômica são menores que os provocados pelos outros segmentos. Tomando as variações trimestrais anualizadas de dezembro de 1996 a junho de 2020, nota-se que a correlação do PIB geral com o PIB da agropecuária foi de apenas 0,3, ante 0,95, no caso da indústria, e 0,96, para serviços. Mesmo a geração de empregos é limitada, até porque o forte avanço tecnológico poupa mão de obra. Em julho deste ano, tínhamos 8 milhões de pessoas ocupadas na agropecuária, 9,8% do total. Esse porcentual vem caindo sistematicamente nos últimos anos. O rendimento médio habitualmente recebido pelos trabalhadores, por sua vez, é de R$ 1.409,00 na agropecuária, 46% menor que o da indústria e 61% menor que no serviço público (mas esta é outra história). A Esalq-USP calcula o PIB do agronegócio, um conceito ampliado do setor, e chega à conclusão de que ele representa 21,4% do produto. Mas mesmo nesta métrica generosa, que não é incontroversa, a participação vem declinando – no ano 2000 era de 28,9%. Também as mazelas sociais persistem, mesmo com a prosperidade do setor. Sorriso, em Mato Grosso, é a cidade que mais produziu grãos em 2019. Mas dos 5.570 municípios brasileiros, fica em 2.274.º lugar em mortalidade infantil e em 4.193.º em taxa de escolaridade.”

O final mostra como o agronegócio depende do estado:

“O agronegócio é um grande trunfo do Brasil. É a nossa melhor parte. Seu sucesso se explica pelo apoio do Estado, tanto no crédito quanto na pesquisa científica, pela exposição à concorrência internacional e pela qualidade extraordinária dos empresários rurais, sempre dispostos a tomar riscos. Mas acreditar que o Brasil possa crescer puxado pelo setor é apenas uma ingênua quimera. Agro pode ser pop e é cada dia mais tech. Mas agro não é tudo.”

Enquanto isso..

“Depois de o Parlamento Europeu rejeitar simbolicamente o acordo de livre comércio com o Mercosul, Tereza Cristina embarca hoje rumo a Portugal. Tentará diminuir resistências. A visita ocorre a convite da ministra portuguesa da Agricultura, Maria do Céu, para tratar de agenda bilateral, mas Tereza martelará sua tese: o agronegócio “não é o vilão” do meio ambiente. A brasileira fará um reconhecimento óbvio: 2020 será pior que 2019, que foi pior que 2018 em desmatamentos e queimadas. Mas defenderá esforço para reverter o quadro em 2021. A ministra da Agricultura do Brasil defenderá ainda que o acordo beneficiará também os europeus. Os portugueses são os menos hostis aos argumentos brasileiros. Há ainda uma rodada de conversa com investidores.” [Estadão]

E esse espantalho da Tereza Cristina?!

“A ministra Tereza Cristina (Agricultura) enviou um artigo a investidores da Inglaterra com argumentos para rebater acusações sobre a destruição da Amazônia para a produção de alimentos. O documento está sendo distribuído pela embaixada brasileira. Na última segunda (5), 20 companhias, entre as quais a Nestlé e o McDonald’s, enviaram uma carta ao governo britânico pedindo que sejam barradas importações de produtos associados ao desmatamento. A ministra afirma que a produção de alimentos não é feita na Amazônia, mas no Centro-Oeste e no Sudeste. “A extração ilegal de madeira e os incêndios florestais são problemas muito sérios, mas não causam o aquecimento global. Narrativas enganosas dessa realidade não contribuem para resolver o problema, mas sim para agravar a polarização e prejudicar a cooperação entre os países”, diz o artigo.” [Folha]

Como se alguém tivesse dito que o aquecimento é causado pela extração de madeira e incêndios florestais. Ora, esses incêndios globo afora são causados por conta do aquecimento global, algo que Tereza Cristina e os ruralistas juram ser coisa da esquerda.

__/\/\/\/\/\/\__

9. Universidades

Vai, STF, porra!!

“O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (PF), votou nesta sexta-feira para obrigar o presidente da República e escolher como reitor das instituições federais de ensino superior o professor que encabeça a lista tríplice escolhida em votação interna. O julgamento ocorre no plenário virtual, em que os ministros não debatem entre si, apenas colocando seus votos no sistema eletrônico da Corte. Fachin é o relator e o único a ter votado agora. O prazo para os demais se manifestarem acaba na sexta-feira da próxima semana. A ação está sendo analisada de forma cautelar, ou seja, mesmo após todos os outros ministros se manifestarem, não será ainda a decisão definitiva. Fachin justifica a necessidade de tomar a decisão cautelar em razão da “proximidade iminente da nomeação de diversos Reitores e Vice-Reitores em algumas das principais universidades federais do país”. A ação foi apresentada pelo Partido Verde (PV) contra uma lei de 1995 e um decreto de 1996. Essas normas dizem que o reitor e vice-reitor serão “escolhidos entre professores dos dois níveis mais elevados da carreira ou que possuam título de doutor, cujos nomes figurem em listas tríplices” elaboradas pelas próprias instituições.

De acordo com o PV, o presidente Jair Bolsonaro vem tomando ações no sentido de fazer “uma verdadeira intervenção branca”, ferindo o princípio constitucional da autonomia universitária. Como exemplo, citou nomeações de pessoas que, embora façam parte da lista tríplice, ficaram em terceiro lugar com votações pouco expressivas. Outro exemplo é uma medida provisória editada por Bolsonaro em 2019 mudando os critérios para a eleição da lista tríplice. A partir da lei de 1995, destacou Fachin, houve um respeito ao nome que encabeçava a lista tríplice. Com Bolsonaro, no entanto, isso mudou. “Uma vez que essa prática tenha sido recentemente alterada, e que a nomeação dos nomes indicados nas cabeças das listas tríplices tenha sido sistematicamente preterida, forma-se dúvida legítima quanto à compatibilidade das normas vergastadas com o ordenamento constitucional”, escreveu Fachin. Depois acrescentou: “O uso de poder discricionário para, sem justificativa razoável, romper com a ordem de indicações, representa ingerência que afeta a universidade em sua capacidade de se autorregular enquanto autarquia especial.” O ministro destacou que há outros mecanismos legítimos de controle por parte do governo, como a fiscalização das verbas repassadas, e a regulação do Ministério da Educação (MEC) no funcionamento dos cursos de graduação e pós-graduação.” [O Globo]

__/\/\/\/\/\/\__

10. Giro pelo mundo

Salvini continua se fodendo lindamente:

“Berço do renascimento, cidade da arte e atração internacional da Itália, é em Florença onde se vê um retrato das reviravoltas da política na primeira democracia ocidental a se fechar numa severa quarentena contra o coronavírus. Aqui, no final de setembro, durante as eleições para o governo de sete das 20 regiões do país, houve a disputa nas urnas mais importante do ano e ela confirmou uma tendência nacional que se acentuou com a pandemia: a direita nacionalista não se mostra imbatível como parecia ser até há pouco. Região no centro do país governada pela esquerda desde o final da Segunda Guerra, a Toscana continuou “vermelha” com a vitória do Partido Democrático (PD), que bateu uma candidata da Liga de Matteo Salvini recorrendo a algumas das estratégias consagradas pela extrema direita. Além de um discurso identitário, exaltando a tradição local numa espécie de “primeiro os toscanos”, os progressistas italianos ainda usaram a difusão em massa de mensagens pelo WhatsApp na véspera da votação, tática pouco utilizada na Itália até o momento — o caso foi denunciado à Justiça e está sob investigação — e reveladora de como essa foi uma eleição marcada pelo medo.

O “ódio à Liga”, como pichado numa parede nos arredores do centro histórico de Florença, foi determinante para a eleição do nada carismático Eugenio Giani, da burocracia regional do PD, que obteve 48% dos votos contra 40% de Susanna Ceccardi, deputada do Parlamento Europeu de 33 anos que se atrelou à imagem do líder nacional da Liga. A derrota foi mais um revés para Salvini, cuja liderança vem sendo ameaçada dentro do partido — uma sombra é Luca Zaia, reeleito governador do Vêneto com mais de 70% dos votos — e no campo da direita. Desde que deixou o governo, em agosto de 2019, pensando que logo voltaria como primeiro-ministro, o senador perdeu mais de dez pontos percentuais de avaliação positiva. Com a pandemia, seu discurso contra a União Europeia foi considerado inapropriado para a nova realidade. A vitória na Toscana foi um alento para a esquerda e em especial para o PD, europeísta e que ocupou no governo nacional o espaço deixado pela Liga após várias experiências no poder e uma profunda crise de identidade. O Executivo comandado pelo premier Giuseppe Conte viu sua avaliação melhorar na pandemia e ganha uma certa estabilidade, embora o outro sócio da coalizão, o populista Movimento 5 Estrelas (M5S), enfrente no momento uma crise interna. Florença, de 370 mil habitantes, é a maior cidade da Toscana. Ela e Prato — o segundo maior município, de vocação industrial e com grande presença de imigrantes, em especial chineses — puxaram o voto contra a direita, predominante em pequenas e médias cidades.

Regionalmente, a direita já chegou há duas décadas ao patamar dos 40% de votos, mas nunca levou. Apesar de sua face internacional, Florença já viu crimes de ódio racial — em 2018 um imigrante senegalês foi assassinado na rua com um tiro na cabeça na, o terceiro caso em dez anos — e ainda não autorizou a construção de uma mesquita. — Muitas pessoas em Florença não aceitam que os imigrantes sejam tratados como bode expiatório — comenta Silvia Vannacci, que dirige uma associação em um bairro popular e que há mais de três décadas acolhe, como ela diz, os “marginalizados sociais”. O medo da vitória regional da Liga, que poderia até afetar o governo central em Roma, levou a um inédito pacto de 186 prefeitos da Toscana — do PD e de outros partidos. Do PD e prefeito de Florença desde 2014, Dario Nardella, de 44 anos, foi um dos articuladores da frente. Ao GLOBO, ele defendeu que a esquerda também use a questão “identitária”, como na campanha. —A tradição e a identidade cultural não podem ser temas sequestrados pela direita, nós devemos abordar isso, mas sem excluir ou querer se impor contra outros, como se vê do outro lado — disse Nardella em seu gabinete decorado com afrescos no Palácio Velho, ponto turístico da cidade.” [O Globo]

Sim, mil vezes sim.

“A Toscana e a vizinha Emília Romanha são os dois últimos redutos “vermelhos” da Itália, ambos há mais de 70 anos. Em janeiro, na Emília Romanha, a centro-esquerda também derrotou a Liga, em votação que marcou o início do desgaste eleitoral de Salvini. Daquele pleito, marcado pelo surgimento das Sardinhas, movimento de jovens estudantes contra a extrema direita, nasceu ainda o protagonismo de Elly Schlein, a jovem vice-governadora da Emília Romanha que passou a ser celebrada como uma das novidades da política italiana. Parte da tradição nessas duas regiões vem do legado do outrora fortíssimo Partido Comunista Italiano, que se enraizou de forma especial no centro do país — o Marche, também nessa área, passou para o comando da direita. Algo da militância dos comunistas no século XX continua presente em entidades como as Arci (Associação Recreativa e Cultural Italiana), os chamados “círculos do povo”, mas os sócios e a influência dos espaços vêm diminuindo. Com o desgaste e o desenraizamento social da esquerda, abriu-se espaço, na classe trabalhadora, para o crescimento da extrema direita. — A Liga, por exemplo, é um partido de direita que tem eleitores tradicionalmente de esquerda, gente da classe popular — afirmou ao GLOBO o cientista político Alessandro Campi, professor da Universidade de Perugia e estudioso do fenômeno. Essa é uma realidade presente em Florença e que também evidencia as movimentações do tabuleiro político italiano: os partidos e movimentos da extrema direita miram especialmente os bairros pobres. O enfraquecimento de Salvini deu lugar no eleitorado de direita para a expansão da deputada Giorgia Meloni, líder dos Irmãos de Itália, partido que é descendente direto do maior grupo neofacista surgido na Europa na segunda metade do XX. Os Irmãos defendem a mesma agenda da Liga, embora moderada nas críticas à União Europeia, e centra sua atuação no eleitorado popular que antes votava no PCI. Nos prédios de Florença que abrigam casas populares, a capilaridade da sigla de Meloni (que apoiou na Toscana a candidata da Liga) é bem maior que a do partido de Salvini e até de grupos de esquerda, como reconhece Francesca Conti, militante de esquerda acostumada a promover debates sobre moradia. Conti mora num bairro florentino de classe média fora do centro histórico. Ao lado de sua casa há uma livraria do CasaPound, grupo neofascista que também desenvolve atividades sociais e culturais para o setor popular e é aliado local dos Irmãos de Itália. — Veremos logo o estouro dessa questão, os aluguéis em Florença estão muito caros. E um dos poucos presentes nessa realidade, fazendo um trabalho de base com os pobres, é o partido de Meloni — afirma.”

__/\/\/\/\/\/\__

11. Um Trump Muito Louco

Do Nelson de Sá:

“Começou pela Lancet, há um mês e meio. Em editorial sobre a eleição americana, a publicação médica fundada em 1823 não endossou Joe Biden, mas deixou clara a crítica ao atual presidente. “O governo anticientífico de Trump despriorizou a saúde e a assistência médica”, publicou. Agora é o New England Journal of Medicine, com seu primeiro editorial sobre eleições em 208 anos. Mesmo evitando endossar Biden e citar Trump, evidenciou sua posição: “Nossos líderes atuais minaram a confiança na ciência, causando danos que vão durar mais do que eles. Em vez de confiar no conhecimento especializado, o governo se voltou para charlatães que obscurecem a verdade.” Acrescentou que a verdade científica não é “nem liberal nem conservadora”. Máscaras e isolamento funcionam, “não são opiniões”, afirmou seu editor-chefe à CNN, depois. Fora da imprensa médica, também a Scientific American, de 1845, soltou editorial, com a mesma argumentação e a ilustração acima, mas endossando Biden: “As evidências e a ciência mostram que Trump prejudicou gravemente os EUA e seu povo —porque ele rejeita as evidências e a ciência. É hora de tirar Trump e eleger Biden, que tem um histórico de ser guiado pela ciência.” A aparente unanimidade científica, contra Trump, não esconde que ele e seu adversário estão mais preocupados com os votos cristãos. Mais especificamente, com os evangélicos pentecostais de origem latino-americana da região de Orlando, “um campo de batalha crucial para os democratas que buscam contrabalançar a força dos republicanos entre os cubano-americanos do sul da Flórida”, segundo o Washington Post. Uma vitória no estado, se a eleição for apertada, é vista como essencial.

Biden voltou para Orlando na sexta (9). Trump estaria lá no mesmo dia, mas cancelou após pegar Covid —e a programação mais recente prevê um comício seu na próxima segunda (12). Ecoando o que se ouve no Brasil, por exemplo, no recém-lançado “Povo de Deus” (Geração Editorial), o grupo que os dois candidatos estão visando não seria coeso, monolítico, diferentemente dos evangélicos brancos, pró-Trump. Os evangélicos latinos seriam menos voltados a temas morais, como aborto, e mais a questões como escola pública e racismo, parte da mensagem de Biden. Mas o democrata só lançou sua ofensiva sobre Orlando há três semanas, talvez tarde demais. Um dos problemas é que o ex-vice de Barack Obama enfrenta uma rede online de desinformação, ao largo da cobertura tradicional. Um dos rumores, citado pelo Post, é que o católico Biden forçaria os outros cristãos a se submeterem ao papa. O projeto First Draft News, baseado em Harvard e que combate fake news com apoio de Google e outras, produziu longo relato sobre a rede de desinformação em torno da pandemia nas comunidades evangélicas da América Latina, inclusive brasileiras (ilustração acima). “A conexão com a diáspora latino-americana nos EUA é o que a torna motivo tão grande de preocupação”, alerta. Publicado no Nieman Lab, destaca que “veículos cristãos trabalham em conjunto com líderes religiosos, compartilhando o conteúdo uns dos outros, para manter um ecossistema de mídia independente do jornalismo laico”. Exemplifica com o vídeo de um pastor mexicano, com dois milhões de visualizações, defendendo um alvejante como cura para Covid e questionando a vacinação, que introduziria um chip no corpo das pessoas. O alvejante teria levado à morte, entre outros, uma criança de cinco anos.” [Folha]

Paulada do José Eduardo Agualusa

“Dizem as más línguas que quem venceu o debate entre Kamala Harris e Mike Pence foi a mosca que pousou no cabelo deste. Não sei se venceu, mas pelo menos chamou a atenção de muitos milhões de espectadores. Vendo a mosca ali tão confiante, tão explícita, descansando durante eternos 123 segundos no liso esplendor do cabelo de Pence, lembrei-me de um filme recente, “Tudo pela arte” (“The Burnt Orange Heresy”), de Giuseppe Capotondi, com Claes Bang, Elizabeth Debicki, Donald Sutherland e Mick Jagger. No filme, o personagem de Bang, James Figueras, é um prestigiado crítico de arte, que vai entrevistar um velho artista plástico, famoso pela reclusão e pelo secretismo da sua pintura. Em determinada altura, Figueras chama a atenção para um fato curioso: a partir do século XV muitos pintores europeus começaram a colocar moscas em algum canto das suas telas, sobretudo nos retratos de determinados personagens. Segundo o ficcional crítico de arte, as moscas simbolizariam a corrupção. Uma mosca numa tela funcionaria como um código secreto, sinalizando aos restantes pintores, ao Senhor Deus, à posteridade, ou todos eles, que o retratado se incorporara em vida às legiões de Belzebu — o demônio das moscas e da pestilência. Tenho dúvidas: se quem vê o retrato repara na mosca, então também o retratado, que provavelmente terá pago um bom preço pela obra, deveria reparar. E certamente estranharia e quereria conhecer o significado daquela entidade minúscula, porém tão desagradável, comprometendo a dignidade e a higiene da sua figura. Uma outra tese afirma que as moscas estariam ali para acrescentar realismo à pintura. Afinal, se a realidade era cheia de moscas (segundo inúmeros testemunhos da época haveria muito mais moscas do que nos nossos dias), então a forma mais fácil de tornar verosímil uma ficção era levá-las para lá. Acreditava-se até que se alguém sonhasse com moscas, é porque não estaria sonhando. Finalmente, há quem defenda que o desenho de uma mosca numa tela servia sobretudo para afastar os insetos reais. Em qualquer dos casos, Mike Pence não sai bem da alegoria. Tomando como certa a primeira tese, isso significa que Deus, o universo, o acaso, ou o que quer que seja que criou aquele estranho momento, estaria dessa forma denunciando Mike Pence como uma pessoa corrupta, devota de Belzebu. A situação fica mais interessante levando a sério a segunda tese: a mosca teria sido colocada ali não pelo acaso, por Deus ou pelo universo, mas pelos marqueteiros republicanos, de forma a conferir alguma realidade a um sujeito que até então vinha se destacando pela extraordinária insubstancialidade (creio que é a primeira vez que uso esta palavra). A última hipótese envolve também os marqueteiros republicanos. A mosca, que não era real, e sim uma réplica exata, um prodígio da tecnologia norte-americana, foi colocada naquela posição estratégica para afastar as moscas reais. Antes de iniciar esta coluna prometi a mim mesmo que não falaria de excrementos. Não vou falar.” [Folha]

__/\/\/\/\/\/\__

>>>> O que vai ter de lobista e empresário querendo conselhos do 04… “Jair Renan, o filho 04 do presidente Jair Bolsonaro, inaugurou na noite de sábado (10) um escritório de empreendedorismo localizado no Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília. O projeto, intitulado Camarote 311, é voltado para entretenimento, projetos sociais e entrevistas com celebridades, segundo o perfil nas redes sociais. “O principal intuito desse projeto é ajudar as pessoas. A causa social, principalmente, independe da classe: A, B, C, D, E, F, G… Não importa”, disse ele em discurso. “Quero ajudar o máximo de brasileiros possíveis. Quero fazer o Brasil grande para os brasileiros. Nosso amigo, o Donald Trump, fala na América grande para os americanos. Eu quero o mesmo.”” [Congresso em Foco] E faço minhas as palavras do Tarcio Silva – “Um escritório de empreendedorismo comandado por um muleque que nunca empreendeu porra nenhuma na vida e cuja família nunca teve nenhuma outra atividade a não ser mamar nas tetas do erário público. A piada é essa,podem rir.” [Facebook]

>>>> Onyx onyxzando: “Ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni chocou uma equipe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) recentemente ao propor, numa reunião, que o Programa Criança Feliz, sobre primeira infância, troque os agentes de saúde e as visitas presenciais a famílias por… tablets. A primeira-dama Michelle Bolsonaro, como se sabe, é madrinha do programa. Será que foi consultada?” [Veja]

>>>> Que contradição maravilhosa: “Dezenas de pastores da Igreja Universal do Reino de Deus apresentaram à Justiça ações de indenização contra o escritor João Paulo Cuenca em todo o país, após ele ter publicado em junho no Twitter que o “brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”, parafraseando texto de Jean Meslier, autor do século 18. Meslier escreveu que “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”. Segundo a defesa de Cuenca, já são mais de 80 ações apresentadas a juizados especiais cíveis em 19 estados, com pedidos de ressarcimento por dano moral em valores entre R$ 10 mil e R$ 20 mil. O escritor afirma que “as ações são muito parecidas, são todos pastores da igreja, isso é uma ação coordenada, isso é litigância de má-fé. Essas pessoas estão usando o sistema jurídico do país para me constranger. Essa ação coordenada é um abuso do uso da Justiça”. A Universal nega que esteja coordenando a apresentação das ações e afirma que seus pastores podem adotar medidas individuais em relação à postagem, uma vez que as leis brasileiras não permitem a promoção do preconceito religioso. Alguns dos documentos dos processos, aos quais a Folha teve acesso, não exibem textos idênticos, mas mostram padrões, como o fato de os próprios pastores assinarem as petições e pedirem a concessão de gratuidade da Justiça nos processos. A Folha fez contato telefônico com o pastor Gildásio Lima Sarmento, de Planaltina (DF), autor de uma das ações contra o escritor, para indagar sobre a apresentação da causa. Sarmento disse à reportagem: “A Unicom pode passar essas informações melhor para você. Você pode entrar em contato com a Unicom, que é a Universal Comunicações, eles te informam melhor”. Procurada pela reportagem, a Universal informou que a Unicom é o departamento da instituição que responde pela assessoria de imprensa da igreja, e há orientação aos pastores de que remetam ao setor todos os pedidos de veículos de mídia. “A informação dada pelo pastor, de que o jornalista deveria procurar a Unicom, apenas cumpriu o protocolo da Universal: somente este departamento pode atender a imprensa”, segundo nota da Unicom. De acordo com Cuenca, as causas caracterizam procedimento abusivo idêntico ao adotado por pastores da igreja em relação à jornalista Elvira Lobato a partir de 2007. Naquele ano, a Folha publicou reportagem de Elvira com o título “Universal chega aos 30 anos com império empresarial”, que descreveu os negócios ligados à instituição. Após a veiculação do texto, 111 fiéis, a maioria pastores, apresentaram ações judiciais contra a repórter e a Folha. As causas foram iniciadas em pequenos municípios, o que levou a defesa e jornalistas a se deslocarem para várias regiões do país. Nenhum dos processos foi julgado procedente. Cuenca, que foi colunista da Folha de 2013 a 2016, diz que a postagem no Twitter é uma sátira de uma metáfora que já foi utilizada por inúmeros autores, e nunca teve intenção de incentivar qualquer tipo de violência.” [Folha]

>>>> Chutem nomes, plmdds! “Certo dia um senador que atende pelo apelido de Vulcabras foi a São Paulo receber uma propina de um empresário local. Chegou ao escritório da empresa, contou o dinheiro e levantou-se para sair, quando o empresário lhe ofereceu um carro blindado para levá-lo ao aeroporto. No meio do caminho para Cumbica, o veículo parou por falta de gasolina. Em dois minutos uma patrulhinha da PM estacionou ao lado do carrão. O senador, que achou que tinham armado contra ele, se identificou com os policiais e pediu ajuda. Pois não, excelência. Os PMs então empurraram o carro blindado e pesado, que carregava um senador com uma mala cheia de dinheiro, até um posto de gasolina.” [O Globo]

>>>> Muito triste com uma notíca dessa! “O pornofilósofo Olavo de Carvalho vai ter que pagar, em 15 dias, uma indenização de R$ 2,9 milhões a Caetano Veloso. A decisão é da 50ª Vara Cível do Rio. O valor diz respeito ao total da multa aplicada ao “guru” do clã Bolsonaro pelo não cumprimento da liminar que mandou que ele apagasse as acusações de pedofilia postadas em suas redes sociais, em 2017, contra o cantor. Já o valor referente à condenação pelos danos morais (R$ 65.966,78) foi depositado judicialmente em agosto.” [O Globo]

>>>> E essa também: “Olavo de Carvalho mora no sul dos Estados Unidos há 15 anos, mas mentiu à Receita Federal que ainda é residente no Brasil. Guru dos filhos e seguidores de Jair Bolsonaro, o autodeclarado filósofo informou no imposto de renda de 2018 que mantém residência no Brasil em uma casa que alugou em Curitiba até 2002. Mas o imóvel tem hoje outros moradores, que sequer sabem quem é ele. Sem declarar a saída definitiva do Brasil, Olavo pode movimentar dinheiro no país como se morasse aqui, o que facilita suas campanhas de arrecadação. E faz isso. Ao menos desde 2006, quando já morava nos EUA, o guru bolsonarista indica os dados de uma conta em nome dele na agência do Itaú nas Mercês, mesmo bairro em que diz à Receita Federal que reside, sempre que pede dinheiro em suas lives na internet. Brasileiros que moram no exterior podem ter contas bancárias para movimentar dinheiro no Brasil. Mas não de qualquer tipo. O Banco Central, o Bacen, manda que seja um tipo especial de conta, que é vigiada de perto pelas autoridades para evitar o risco de evasão de divisas e, por isso, custa muito mais caro para ser mantida. No Itaú, por exemplo, apenas a tarifa de manutenção de uma conta desse tipo custaria cerca de R$ 1 mil mensais a Olavo. Mas, ao menos até 2017, o banco acreditava que o guru bolsonarista ainda vivia em Curitiba, segundo um documento emitido pelo próprio Banco Central que está anexado a um processo a que ele responde. A mentira à Receita, ao Itaú e ao Banco Central pode configurar fraude, afirmam especialistas em contabilidade e direito tributário com quem conversamos. Além disso, poderia motivar uma investigação do Banco Central sobre o Itaú, que por pelo menos 12 anos permitiu – e talvez ainda permita – a um cliente famoso manter um endereço desatualizado em seu cadastro bancário e pagar as mesmas tarifas cobradas de um residente brasileiro. Não comunicar o novo domicílio fere a resolução 2.025 do Bacen e poderia levar à cisão do contrato do cliente com o banco. Não ter uma conta especial de não-residente também vai contra a circular 3.691 do Bacen, que trata de contas de domiciliados no exterior. Se for constatado o descumprimento, a conta de Olavo pode ser encerrada. O Itaú corre risco de sofrer investigação do Banco Central por não tomar providências, porque segundo os regulamentos do setor é obrigação do banco manter o cadastro e o regime contratual de seus clientes atualizados. “Até mesmo mesmo por questão de compliance, se o banco souber que o correntista não é mais domiciliado no Brasil, precisa tomar uma providência”, nos explicou um especialista em direito tributário internacional que preferiu não ser identificado por ocupar cargo público no Conselho Administrativo de Recursos Federais, o Carf.” [Intercept]

>>>> Dia desses esse sujeito que tá tomando uma surra maravilhosa do Boulos dizia que havia abandonado a alcunha MAMÃE FALEI pra parecer mais sério e agora mudou de idéia. Continua vivo o sonho dele sair no NYT como “MOMMY SAID” “Com o segundo maior Índice de Popularidade Digital entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo, segundo a ferramenta da consultoria Quaest, o deputado estadual Arthur do Val (Patriota) variou de 2% para 3% na intenção de votos medida pelo Datafolha entre 24 de setembro e 8 de outubro. Com apenas 16 segundos no horário eleitoral, o fundo eleitoral dispensado e debates cancelados, o candidato do MBL (Movimento Brasil Livre) apostou na volta às origens, o seu canal no YouTube Mamãe Falei, para atrair converter seguidores em eleitores. Membros da campanha esperam que o novo nome o faça disparar na próxima pesquisa. Sondagens internas indicaram que o eleitor não estava associando Arthur do Val, desconhecido de 75% dos entrevistados pelo Datafolha, a Mamãe Falei. A não utilização do apelido era parte de uma estratégia, agora enterrada, de separar o candidato a prefeito, alguém que deve ter um perfil conciliador e governar para todos, do deputado estadual que arruma briga no plenário, chamando sindicalista de “vagabundo” e trocando empurrões com colegas do PT. Aliados de Arthur rejeitam a ideia de houve uma mudança na comunicação. “A postura combativa e incisiva é dele e isso jamais mudaria. O que ele disse que faria diferente na eleição é não só criticar, mas apontar soluções, e isso ele tem feito”, diz Battista.[Folha] Aham, o problema é o ome sim…

>>>> As ondas: “O presidente da Argentina, Alberto Fernández, anunciou nesta sexta-feira uma nova prorrogação da quarentena no país. Ela estará em vigor a partir da próxima segunda-feira até 25 de outubro. Segundo Fernández, em pronunciamento da Casa Rosada, a situação epidemiológica da Área Metropolitana de Buenos Aires (Amba) melhorou, mas o problema “se estendeu ao resto do país”. Neste sentido, ele anunciou que o governo vai tomar medidas para restringir a circulação em cidades de 18 províncias. — Uma curva que parecia acelerar na Amba começou a se achatar. Há cinco semanas começou a diminuir. A experiência da Amba foi muito importante. Ela nos diz aonde ir para que o problema não saia do controle — disse o presidente. — O problema hoje ultrapassou a Amba e se espalhou por toda a Argentina. Começou a circular localmente, quase em todas as províncias do país. Hoje o panorama é muito diferente do que tínhamos semanas atrás. Fernández também disse que é preciso “restringir a circulação, mas isso não significa parar a economia”. Com mais de 850 mil infectados no país desde março — e uma média de 13.052 casos diários nos últimos sete dias — a preocupação do governo nacional não tem mais seu epicentro na Grande Buenos Aires, mas em algumas províncias do interior onde aumentaram as infecções de coronavírus, como Mendoza, Tucumán, Santa Fé, Córdoba, Neuquén, Jujuy e Tierra del Fuego. Por outro lado, na capital argentina, onde se verifica “uma diminuição lenta e sustentada dos casos”, o prefeito Horacio Rodríguez Larreta anunciou uma forte flexibilização do confinamento, com a reabertura gradual das escolas, que estão fechadas desde março. — A Área Metropolitana de Buenos Aires esteve isolada desde o primeiro dia, até hoje , e isso serviu para controlar bastante alguns problemas que tinham a ver com a propagação do vírus além do que se esperava. Conseguimos controlar o trânsito, minimizamos o uso do transporte público. Isso foi essencial — disse Fernández durante o anúncio, acompanhado pelos governadores de Santa Fé, Omar Perotti, Neuquén, Omar Gutiérrez, e pelo presidente de Jujuy, Gerardo Morales. Fernández disse que há quatro províncias que “conseguiram lidar muito bem com o problema: La Pampa, Catamarca, Formosa e Misiones”. No resto, disse ele, o vírus está circulando. — De alguma forma, você tem que limitar essa circulação — ele disse, ressaltando que quase 65% das infecções hoje vêm das províncias do interior. Além disso, o presidente argentino disse que há várias províncias com preocupante percentual de ocupação de leitos de terapia intensiva, perto de 80%, como Río Negro, Santa Fé e Mendoza. — Diante desses dados, entendo que seja necessário fazermos algo diferente do que temos feito — disse Fernández. — O que fizemos com a Amba deve ser feito com cada província. E Antes do anúncio oficial, Fernández se reuniu na Casa Rosada com o chefe do governo de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, e esteve em uma reunião virtual com o governador de Buenos Aires, Axel Kicillof, que permanece isolado por ter contato próximo com um caso confirmado, para definir o novo rumo a seguir na região metropolitana. Ocorreram 15.009 infecções e 515 mortes confirmadas em 24 horas na Argentina, elevando o total para 817.455 casos. Há 23.225 mortes por Covid-19 no país desde o início da pandemia.” [O Globo]

Um comentário em “Dias 648, 649 e 650 | “Ô malandro, vai plantar arroz, vai plantar feijão” | 10, 11 e 12/10/20

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s